Jornal do Brasil

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

Trânsito

Adeus às armas

Celso Franco

Em 1948, com 20 anos, tirei minha Carteira Nacional de Habilitação, examinado pelo exigente e legendário Diretor de Trânsito Dr Edgar Estrela. Fizera o meu aprendizado em apenas 10 aulas, tal era o meu desejo de saber dirigir.

Somente em 1950, quando declarado Guarda Marinha, meu pai presenteou-me com um carro inglês, Morris Oxford. Naquele tempo, os carros americanos eram caríssimos e imperavam os ingleses e o Citroën, francês,este, existindo fila para obtê-lo..

Permaneceu em uso, comigo, até 1954, quando, mais uma vez, meu pai presenteou-me com um Pontiac, de oito cilindros em linha, hidramático, modelo 1952, pouco usado. Vivi um sonho com este carro, tal o seu desempenho, embora fosse um tremendo consumidor de gasolina.

Quando, em 1958 fui designado para uma comissão naval, na Holanda, que me propiciaria prender a ciência de controle do trânsito, lá, já por minha conta, adquiri, um Pontiac Catalina, lindo,preto com teto marfim,solar e que me deu grandes alegrias, “voando rasteiro”nas magníficas auto estradas holandesas e alemãs.

De volta ao Brasil trouxe comigo, legalmente, como bagagem, um Mercedes, 280 S, modelo 1960, que, para um Capitão de Corveta, era impossível mantê-lo.Com sua venda reformei minha casa.

Enviado, para ser Capitão dos Portos, da Paraíba, adquiri lá o meu primeiro carro brasileiro, a Kombi Volkswagen, excelente carro para se ter no nordeste.

De regresso ao Rio, continuei na mesma linha, já agora com o “Fusca”, de gloriosas lembranças.

Seguiu-se uma série de carros, incluindo um Mercedes 280 S, de segunda mão, modelo 1974, adquirido em 1977.

Finalmente, após passar pelo, Dodge, o Monza  e o Vectra, adquiri um Crysler Stratus, excelente carro, em 1997, substituído por outro ,em 2002, até os dias de hoje, quando, aos 88 anos, perdendo o prazer de dirigir, neste trânsito caótico , que conseguiram transformar o que, no Rio, já foi bom, resolvi terminar o meu caso de amor com o automóvel., Vendi-o e, pelo menos por enquanto, só ando de carona, no carro de minha mulher, ou de táxi comum, ou executivo.

Aliás, em face da atual imobilidade urbana, só saio da Barra, uma vez por semana para presidir a primeira JARI, no DETRAN, ou quinzenalmente para ir até Niterói, onde ainda tenho atividade empresarial. O uso do táxi preenche, com vantagem, a aporrinhação em que tornaram o ato de dirigir no Rio.

Dirigir no Rio tornou-se uma guerra, infelizmente, como aquela, com vítimas fatais. As estatísticas não me deixam mentir.

Cansei de sugerir, em meus artigos, aos atuais detentores da responsabilidade de gerir o trânsito e o transporte no Rio, como melhorá-lo, fruto de minha vivência de mais de 40 anos de “janela”, sem o menor resultado, em que pesem as promessas e a maneira educada e respeitosa com que me tratam.

Estou pensando em parar de comentar o que se passa no Rio, passando a escrever artigos doutrinários ou esclarecedores, a fim de educar, para os que desejarem,o uso da concessão de dirigir uma máquina mortífera, que se chama automóvel.

Afinal, não adianta sugerir a quem está enquadrado no provérbio indiano: “Poderás convencer o sábio; poderás, embora com mais dificuldade, convencer o ignorante mas, jamais poderás convencer o que está na meia ciência, o que pensa que sabe.”

Tenho o direito de cansar de falar sozinho, de lutar como um Dom Quixote, combatendo o que jamais será vencido, encasteladas que estão, as autoridades, na ilusão de que o poder dá a competência, quando é ao contrário..

Fiquei livre das multas oriundas de pardais, alguns funcionando em horários inúteis, tornando-se em meros caça-niqueis,(estes tolerados), das dificuldades de estacionar na rua, ou de pagar preços exorbitantes nos edifícios garagem, da preocupação estressante de dirigir um automóvel, no meio deste trânsito louco,controlado, em pleno século XXI, por semáforos de tempo fixo, que burramente, fecham , altas horas da madrugada, para não passar ninguém; onde prima a ausência da fiscalização policial competente; da ameaça dos motociclistas, protegidos por uma lei burra, que considera a colisão com eles, atropelamento;livrar-me do inconveniente das “blitzen” policiais e; finalmente poder descobrir um mundo novo, ao admirar a linda paisagem da orla marítima do Rio, andar pelo meu bairro, para ir ao banco, ao barbeiro ou à loja de guloseimas e de bebidas importadas, descobrindo belas residências e belos jardins, que antes, eu nem notava.

Livrei-me enfim das despesas e responsabilidades agregadas ao fato de possuir um automóvel e, principalmente, se preferir, ler tranqüilamente, enquanto dirigem por mim. Estou matando as saudades, de quando tinha direito a carro oficial, a melhor mordomia do serviço público. Dirigir, só em países do Primeiro Mundo,onde se sente prazer em fazê-lo

Escolhi o título do romance famoso de Ernest Hemingway, “Adeus ás armas”, porque, como seu herói principal, o tenente Henry,a guerra não era dele, americano que era, alistado no exército italiano, mandou-a às favas e foi viver a sua vida. Como ele, eu, também, nesta guerra do trânsito,mandei-a às favas. Nada tenho a ver com ela, quem quiser que se estresse, correndo risco de um ataque de nervos, ou pior, cardíaco.

Vou curtir o tempo que me resta de vida, viajando, cuidando dos meus hobbies, que não são poucos, na paz do meu lar, enquanto, nas ruas o “averno ruge enfurecido”, como dizia um velho hino religioso dos meus inesquecíveis e inocentes tempos, de menino, então aluno marista..

Tags: lar, lei, Mundo, países, PAZ, Romance, vida

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