Jornal do Brasil

Quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Trânsito

A filosofia e o trânsito

Sonho do Porto Maravilha, que beneficiará poucos, não deveria se transformar no pesadelo de muitos

Celso Franco

A falta de uma filosofia ou, como diz a CET-SP, de uma arquitetura para os projetos, causa enormes distorções nos propósitos a que se propõem os nossos engenheiros de tráfego.

Quando de meus estudos de física, nos idos dos anos 40, a fim prestar concurso para a Escola Naval, o professor do curso preparatório, que também exercia esta cátedra na tradicional Escola Politécnica do Largo de São Francisco, sempre nos alertava com a frase: “Meninos, antes de pensarem nas fórmulas matemáticas para resolver qualquer problema, pensem no fenômeno de física que ele representa.” Era uma maneira subliminar de nos dizer que a filosofia precede a ciência, frase que bem mais tarde ouvi do mestre Raul Penna Firme, arquiteto e urbanista.

Infelizmente esta nuance, tão importante para o planejamento do trânsito urbano, passa ao largo na nossa CET-Rio.

O principio basilar de uma eficaz administração do trânsito urbano, que mandei colocar numa placa retangular de 1 X 2 metros, na entrada do Detran-GB, é a frase lapidar de Sir Alker Tripp, legendário diretor de trânsito de Londres na década de 30:

“No trânsito, tudo que se puder obter através de medidas construtivas não deve ser imposto, mediante restrições legais. Esta é a chave do sucesso ao lidar com a organização do trânsito urbano.”

Tamanha é a ignorância no assunto que aqui estou abordando que, tão logo eu deixei o Detran-GB, o diretor que me sucedeu mandou retirá-la. Para ele era grego!

É também indispensável que se associe o trânsito à  magistral definição do professor Hilton Gadret de que ele é a “superfunção urbana”, o que nos leva a outro raciocínio em relação ao uso do automóvel, de que ele é o arquiteto das novas cidades, haja visto Brasília.

Então, a troca de idéias com o urbanista é fundamental.

Quando de minha gestão no trânsito do Rio, tinha na minha equipe dois arquitetos, professores de urbanismo e, trocávamos idéias com o IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil).

Naquela época, idos de 60, o “Papa” do urbanismo era o grego Constantinos Doxiadis, especialista convocado por Carlos Lacerda, primeiro governador do novo Estado da Guanabara, para planejar o seu desenvolvimento urbano, que tinha uma norma filosófica da qual sou, sem que me desse conta, seguidor, que é : 

“Com a razão e o sonho, é o meu lema.

O sonho quer dizer a fantasia, a imaginação, a intuição.

A razão, a matemática, a estatística e tudo que possa tornar possível o sonho se tornar realidade.” Não fosse eu aquariano.

A outra norma básica é saber, segundo declarou Ernest Weisseman, conselheiro da ONU para assuntos urbanos, que o trânsito é o terceiro problema social do mundo, só superado pela manutenção da paz e a fome. É neste aspecto, principalmente, que devem ser encaradas suas soluções Ouso complementar que a ordem de se equacionar os problemas do trânsito deve ser: primeiro o seu efeito social, segundo o ambiental e, finalmente, o de engenharia.

As recentes intervenções no trânsito do Rio desprezaram o efeito social, agrediram o ambiental e utilizaram uma engenharia desprovida da razão e do sonho.

O sonho do Porto Maravilha, que beneficiará a uns poucos, não deveria se transformar no pesadelo da grande  maioria.

“Os governos devem decidir se tomam medidas de urbanismo para mais veículos ou mais pessoas circularem”, assim declarou Mr Craig Thorpe, secretário de Transportes no governo Nixon, em congresso sobre o transporte urbano, em 1969.

Os governos do novo Estado da Guanabara atacaram o sistema de mais veículos circularem, não dando ênfase paralela ao deslocamento de pessoas, por ser este bem mais caro, pois envolve transporte de massa eficiente.

“O espaço viário é restrito. O acesso a ele hoje, é irrestrito. O resultado são os congestionamentos. Isso precisa ser racionalizado”,declarou Alexandre Gomide, então diretor de Regulamentação e Gestão do Ministério das Cidades;

Por causa destas duas últimas considerações criamos o sistema de racionamento do uso das vias, o URV, até hoje não aceito, por causa creio eu, da consideração do autor inglês G.C. Chesterton: “Não me preocupam os que não vêm a solução, mas sim os que não vêm o problema.”

Se pensam que adotando o BRT irão retirar os carros da vias, aumentando o rendimento da malha viária e, conseqüentemente, também, a mobilidade urbana, estão completamente enganados. Basta pesquisar quantos usuários do BRT possuem carro. Não chegará a 1%.

A CET-Rio, na atual operação de criar mão dupla na Avenida Rio Branco, sem tomar os cuidados que a medida requereria, tirou carros e táxis de circulação na área atingida contrariando o principio básico de Sir Alker Tripp e, como tal, reprovável por aqueles que, como eu, ainda respeitam os ditames dos nossos maiores verdadeiros axiomas.

Como última a preocupante consideração, cujos efeitos já estamos sentindo, de Harold Brookfield, assessor técnico da ONU,  para também assuntos de urbanismo e mobilidade urbana, fruto da não observação de uma filosofia:

”Ajuntamentos urbanos, no Terceiro Mundo muito menos densos que os do Primeiro, já se mostram desastrosos, capazes de destruir uma das maiores conquistas da civilização humana, o direito à privacidade e à segurança”.

Tags: Artigo, Celso, coluna, franco, JB, Trânsito

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