Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Trânsito

E a bomba de retardo explodiu!

Celso Franco

Não apenas por coincidência mas, pela lógica da vida, na segunda dia 30, publicava um artigo, chamando a atenção do prefeito sobre a solicitação dos empresários de ônibus, para o reajuste das tarifas previsto por contrato. Pois bem na mesma semana acontecia a ação jurídica da Rio Ônibus para o cumprimento do contrato pela prefeitura e, logo em seguida a manifestação na Câmara Municipal,pelos membros da comissão que investiga (?) serviço de ônibus, defendendo a negativa do aumento contratual. Tentam, sem expectativa de sucesso, impedir a explosão da bomba de retardo, que, como sempre, irá atingir o pobre do usuário.

Este impasse, fruto do pecado original do sistema de administração dos transportes por ônibus, onde o lucro é o seu maior objetivo, uma vez que as atuais empresas são oriundas dos famigerados lotações, do tempo da Segunda Guerra, que irá sempre criar este impasse periódico.

Faz-me lembrar uma figura, muito popular, tentando enfatizara cooperação, onde apareciam dois burros presos entre si por uma corda e que puxavam, cada um para o seu lado e não conseguiam alcançar os dois montes de feno, equidistantes dos dois muares. Na sequência dos quadros da figura, ambos param, conversam e vão cada um, por sua vez, juntos, comer o monte de sua conferência, resolvendo de maneira inteligente e cordata, o impasse representado, no primeiro quadro da série. Longe de mim de querer comparar os lados em litígio, como dois burros, seriam, a meu ver, substituídos por duas raposas, querendo comer dois balaios de aves. Num somos nós, os usuários, desejados pela raposa prefeitura e o outro a raposa  Rio Ônibus desejosa de devorar a prefeitura. Não sei se haverá o indispensável diálogo para desarmar a bomba.

Está faltando alguém com a coragem dos componentes do grupo criado pela Inglaterra, durante a Segunda Guerra Mundial, para desativar as UXB, ou seja, as bombas que, atiradas pelos alemães, não explodiram.(Unexploded bombs).

Existe um livro intitulado “Danger UXB”, publicado em 2001, que conta a história destes heróis anônimos.

No caso do serviço de ônibus é preciso coragem para fazê-lo, enfrentando o poderoso “lobby” em que se constitui este serviço, absurdamente tercializado, para um sistema empresarial que, mui justamente, tem como propósito o lucro.

Para mim, que tive a extraordinária oportunidade de aprender de quem sabe, no Primeiro Mundo, ouvi, dos mestres alemães, há mais de quarenta anos que: o lucro do transporte deve ser social, fruto da produção de um povo bem transportado e, ainda: as despesas do estado com o mantenimento de um transporte eficaz, não são despesas, são investimento, para consecução de seu propósito maior a obtenção do bom transporte que se reflete na produção maior do povo e na satisfação política com o governo.

Antes de me sentar junto ao meu computador, a fim de escrever este artigo, folheei o livro clássico: The Moving Metropolis. A history of London's transport since 1800.

Periodicamente o releio, a fim suprir as minhas deficiências no assunto: Transporte.

Se aparecer algum prefeito com a coragem dos membros do esquadrão antibombas inglês, estou pronto a lhe sugerir o que sempre propugnei: a transformação de concessionários em arrendatários, remunerados pelo km/rodado, de seus veículos arrendados ao município, conforme o planejamento municipal para seus roteiros e o valor estabelecido por comum senso.

Poderemos ir mais longe, absorvendo os motoristas como funcionários da prefeitura, blindando o usuário que já o seria, pelo novo sistema, contra o “lock out” das empresas e, agora, como funcionários públicos, contra a possibilidade de greve dos condutores.

No desarme desta bomba de retardo, é sempre bom alertar, existe o mesmo perigo de vida do desmonte das reais bombas não explodidas, ainda, as UXB, esta agora, do transporte urbano.

Tags: Artigo, Celso, coluna jb, franco, Trânsito

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Comentários

1 comentário
  • cesar coelho cunha

    A região metropolitana sofre com das "capitanias hereditárias dos ônibus". A região cresceu mais e crescerá mais ainda, sabemos disso. Insistem em .... ônibus e BRT. O BRT é um trolleybus com botox, que precisa de uma infraestrutura trabalhosa e ainda ocupa faixas de escoamento importantes para automóveis e veículos de emergência. Em Jacarta, o nosso brasileiríssimo Aeromóvel circula há mais de 20 anos, circulando também num circuito menor em Porto Alegre.Qual o motivo de não aplicarem o Aeromóvel por aqui? Lei 8.666, que precisa de mais opções para escolher o mais barato (e ruim) numa longa licitação ? Há também o MAGLEV, outro produto de ponta , criado pelo pessoal da COPPE/UFRJ. Leiam a página 28 do link que leva à revista nº93 do CREA-RJ: http://www.crea-rj.org.br/wp-content/uploads/2013/05/Revista93_WEB.pdf

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