Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Trânsito

E agora, prefeito?

Celso Franco*

Faz tempo que venho alertando as autoridades da prefeitura, da área do trânsito e do transporte, sobre a necessidade de implantar o projeto Utilização Racionada das Vias, capaz de reduzir em até 75% o volume de carros nos horários de pico e, principalmente, gerar recursos para subsídio do transporte público por ônibus. Enfatizei esta necessidade quando das violentas manifestações públicas contra o aumento de 20 centavos neste tipo de transporte. Na ocasião surtiram efeito os protestos, sendo suspenso, em todo o Brasil, o pretendido aumento, previsto por contrato.

Afinal, se permitem e aceitam que o transporte pblico seja lucrativo e tercializado, como impedir que os empresários que acreditaram no governo e investiram pesado em suas frotas não possam pedir o cumprimento do contrato, com os aumentos periódicos?

Na ocasião, adiaram “sine die” a justa reivindicação dos empresários, embora sabendo que esta bomba de retardo iria explodir mais tarde. Agora, quando ela está prestes a explodir, resolveu o poder pblico cumprir aquilo a que se obrigara, por contrato. Entretanto, ao ser anunciada a medida, foi desaconselhado pelo Poder Judiciário, ignorando eu o motivo alegado.

Lembro-me de que durante o ano de 1969, quando era forte a ação de subversivos contra as autoridades, o medo venceu a vaidade e o conforto, na medida em que eu, então diretor geral do Detran/GB, recebia ofícios solicitando a substituição da chapa branca pela comum, embora fria. Será que é o mesmo motivo, o medo da reação popular, caso seja concedido o aumento? Foi o que o Judiciário alertou ao prefeito?

Volto a insistir no que já me tornei inconveniente, para não usar a expressão chula, um “chato”, ao insistir na adoção do URV, expressão máxima para uma sociedade mais justa, tão propalada pelos políticos, sendo que alguns não sabem sequer como torná-la. O  que proponho — a criação de uma taxa de congestionamento para o condutor isolado em seu carro, nos horários de pico, e, para escapar desta taxa, o pagamento de um pedágio mensal de 50 reais para compartilhar o seu carro com outros donos de carro, de sua intimidade, a par da diminuição drástica do volume de carros — irá gerar uma verba capaz de suprir o aumento contratual, sem que seja onerada a classe mais carente que, coitada, depende do precário e superlotado serviço de ônibus. É preciso que se lembrem, os que acompanham a minha luta, por enquanto inglória, que este pedágio mensal terá sua redução percentual, igual à diminuição percentual do volume de carros circulando no horário de pico.

Pela minha expectativa, rapidamente este valor do pedágio chegará a 50% do valor estabelecido, podendo alcançar, pelo número de componentes de cada grupo de transporte solidário, em curto espaço de tempo, 25% do valor inicial, o que, convenhamos, é perfeitamente aceitável, face à mobilidade urbana que irá gerar e o alivio que trará ao prefeito, agora em situação difícil, na medida em que subsidiará o transporte por ônibus.

Finalizando, um alerta sobre um tremendo mal-entendido: mobilidade urbana não é criar BRT ou VLT. Se fizerem uma pesquisa sobre quantos donos de carro os utilizam, o resultado será ridículo. Mobilidade urbana é a mobilidade dos veículos de socorro, principalmente a ambulância.

No mais, um ano de 2014 com mais mobilidade urbana e mais clarividência, são os meus votos.

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. -acfranco@globo.com  

Tags: à mobilidade, aceitável, face, gerar, irã, perfeitamente, que, Urbana

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