Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Trânsito

La nave va

Celso Franco

Há quase quarenta anos colaboro com o Jornal do Brasil, semanalmente, falando sobre o  que se vê no nosso vergonhoso trânsito, tanto rodoviário como urbano, na medida em que não tem mobilidade e detém o recorde mundial de acidentes.

Entra administração federal no DENATRAN e sai administração e não se vê nenhuma providência eficaz, ao menos um controle efetivo e divulgado, para nós, simples pagadores de IPVA, do rendimento diário da malha viária urbana e das estatísticas, minuciosamente esclarecidas as causas, dos acidentes de trânsito.

Por mais que se tenha paciência, até Jó, não o atacante da seleção brasileira de futebol, mas o personagem bíblico, a teria perdido. Só eu não posso perdê-la. Se eu a perco, quem vai fazer o que eu faço no jornal, pelo menos esclarecendo aos leitores, as autoridades de boa vontade, a minha visão sobre o tema, apoiada por mais de quarenta anos “de janela” e já tendo estado do lado de lá por três vezes, em períodos diferentes, destes quarenta anos.

Ainda nesta semana, um programa de TV, focalizou a barbaridade que é o trânsito da cidade maior e mais rica do Brasil, a monumental São Paulo.

Na minha primeira gestão no DETRAN GB, costumava ir até lá, a fim de trocar ideias com o meu colega, Paulo Pestana. Numa destas idas, no final da década de 60, numa palestra na Associação Comercial local, disse-lhes que não resolviam o já complexo trânsito naquela época, porque não queriam, pois que não lhes faltavam nem recursos nem competência a ser contratada.

Finalmente, em 1973, o prefeito Miguel Colassuono, por sugestão de seu secretário de transportes, Mário Alves Mello, resolveu investir e contratar uma equipe de profissionais , de reconhecida competência. Deu uma arrumada que, infelizmente durou pouco. Não impediram que houvesse a temida solução de continuidade, apesar dos esforços do saudoso engenheiro de tráfego Roberto Scaringella.

O Rio, que nunca contratou nenhuma consultoria técnica, seguiu os seus passos. O rendimento da nossa malha viária urbana, nunca medida, é uma lástima e, note-se, não são apenas as obras que a dificultam, é a omissão ou desconhecimento do problema principal.

Este problema, ou seja, a escolha do carro, somente com seu motorista, impunemente, nas horas de pico, só tende a aumentar, conforme demonstrou uma importante pesquisa do Sindicato Nacional de Arquitetura e Engenharia. Nesta pesquisa está previsto para a cidade do Rio, no ano 2040 (quando, felizmente, não mais estarei por aqui), um carro para cada duas pessoas. Ou seja, bateremos Los Angeles, quando tinha um carro para cada três habitantes e, optou por uma série de viadutos e free ways, como solução, hoje uma cidade engarrafada.

Ainda na pesquisa do Sinaenco, 58% dos 400 entrevistados apontam o trânsito e o transporte como o principal problema de infraestrutura.

Então, os descontentes elegerão o próximo prefeito, por maioria absoluta, no primeiro turno.

As soluções lógicas não são adotadas, “por capricho ou presunção”, como se canta no fado “Perseguição” ou, o que é mais provável, por falta, não de vontade, mas de coragem política.

Enquanto isto, como bem retratou o imortal Federico Fellini, no seu notável filme, em que retrata algumas das mazelas do mundo, "La nave va"!

Pois bem, se a nave, do trânsito brasileiro, vai, e nada se fizer para se corrigir o rumo de sua singradura, irá ter o mesmo destino de outra nave, também de criação italiana, o “Costa Concórdia”, afundado, também, por displicência ou falta de responsabilidade.

Tags: Artigo, Celso, coluna, franco, Trânsito

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