Sangue e urina
O título foi inspirado no imortal romance, do espanhol Vicente Blasco Ibáñez, intitulado Sangre y arena, que trata de um drama que ocorre no mundo das corridas de touros, em português: touradas. O livro tornou-se filme, onde Tyrone Power vive o personagem principal, o toureiro Juan Gallardo, que, ao morrer na arena, no final, mereceu a reflexão filosófica do autor, colocada na expressão de um dos auxiliares do toureiro morto. Ao ouvir o alarido do público saudando a continuação do espetáculo: “Rugia a fera: a verdadeira, a única”.
Pois bem, além da semelhança do título deste artigo existe o paralelo entre os públicos, sempre de comportamentos iguais, o do romance e os que brincaram Carnaval de rua e os que utilizaram as estradas, dirigindo seus caros durante a festa e no final dela.Ficou demonstrado, nos dois casos, a falta de responsabilidade, em boa hora alertada, em campanha, do Ministério das Cidades, pela TV.Não seria exagero considerar falta de respeito para consigo próprio e para com o próximo.
Felizmente, no nosso Rio, na área urbana, não houve sangue, apenas urina, na medida em que mais de 600 feras transformaram os locais onde brincavam em blocos, superdimensionados, em verdadeiros mictórios ao ar livre. Comportamento de animais e, a julgar pela agressividade, quando advertidos, merecem o título dado pelo romancista espanhol: feras, as únicas.
Já no caso das mortes nas estradas, o que justifica a palavra sangue no título, é de se esperar do primata que somos todos nós, quando atrás do volante, com domínio de uma máquina mortífera, com no mínimo 110 cavalos de força, um excesso, seja ele qual for..
Condicionados pelo princípio do Piev (Percepção, Inteligência, Emoção e Vontade forte), transformam-se, também em feras ao desrezarem as mais comezinhas regras de bem viver.
Como sempre, o maior número de acidentes fatais acontece na malha viária estadual do estado de Minas Gerais. É fruto da grande quantidade de estradas, de duas faixas, com duplo sentido e frequentadas por caminhões que trafegam em velocidade abaixo da metade da máxima permitida, infringindo, impunemente, o artigo 219 do Código de Trânsito.
Já alertei, em matéria anterior, que na Alemanha, em suas excepcionais autobahnen, normalmente, com quatro faixas de rolamento em cada sentido, nos dias de descanso é proibida a circulação de caminhões, isto há mais de trinta anos.
Não entendo por que o encarregado do circo, por onde desfilam as feras, na maioria das vezes em excesso de velocidade, ainda persiste nesta omissão criminosa de não eliminar a presença de caminhões, nos fins de semana e feriados prolongados, responsável maior em atuar sobre o E e o V, do principio do Piev, para forçar a ultrapassagem proibida e bater de frente.
Tanto faz que se intitule Sangue e areia ou Sangue e urina, ambos são dramas que estão presentes no bastidores de dois dos maiores espetáculos da terra.
Cabe à conscientização a tarefa impossível de eliminá-los.
* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com
