Jornal do Brasil

Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Trânsito

Rio, como vamos?

Jornal do BrasilCelso Franco*

Rio, como vamos? Ou apenas RCV — é um grupo apartidário e tem o apoio de importantes entidades, como por exemplo a Firjan, Associação Comercial, Santander e muitos outros. A sua atividade consiste em acompanhar a qualidade de vida do carioca em dez importantes áreas de atividades. Publica, mensalmente, os resultados pelo O Globo e no seu site "Rio como vamos". A semana que passou, pelo jornal O Globo, tomei conhecimento de sua existência, utilíssima, com os resultados de sua pesquisa sobre o tema do momento: A mobilidade urbana.

Esta matéria mereceu importante editorial do Jornal do Commercio, analisando o assunto e sugerindo ao final de seu texto: ”De todo modo a questão da mobilidade urbana se erige, cada vez mais, em prioridade irrecusável no conjunto de quantas influem decisivamente para fortalecer a estratégia de desenvolvimento, segundo padrões de fato condizentes com o bem-estar e segurança das pessoas em seu deslocamento entre os locais de moradia, trabalho e laser”.

A matéria de O Globo apresenta os resultados estatísticos do crescimento da frota nacional de carros, fator indispensável e dos mais importantes para nossa economia e a geração de empregos, além do percentual dos meios de transportes utilizados pela população, a saber:

Trem 1%, metrô 3%, vans 5%, veiculo próprio (carro de passeio)10%, ônibus comum 45%.

Complementando, entre os piores problemas, aparecem, entre outros, a falta de respeito às leis do  trânsito, 48% e o comportamento dos motoristas com 53%, fatos que são correlatos.

Vou, de novo, plagiar o autor inglês G. C. Chesterton, quando escreveu em seu livro: The scandal of father Brown. Não me preocupam os que não veem a solução mas os que não veem o problema. É este o maior entrave para a solução, em curto prazo, para a mobilidade urbana.

Todos, a quem foi dada a oportunidade de opinar, apontam o transporte de massa, de boa qualidade, como sendo capaz de restaurar a mobilidade urbana. Pelo que se vê, o único transporte capaz de fazer o usuário optar por ele, em vez do seu carro, é o metrô. Assim mesmo, não se esqueçam de que Henry Ford, cuja biografia deveria fazer parte dos currículos de engenharia de tráfego, sempre dizia que atribuía o sucesso de seu invento, à preguiça e ao desejo de conforto, inerentes ao ser humano. O metrô só terá sucesso na medida em que respeitar a observação do responsável pela popularização do carro de passeio.

Nas estatísticas dos meios de transporte utilizados pelo carioca, esqueceram, por não serem especialistas, o percentual de ocupação das vias ocupado pelos 10% de seus usuários no seu carro, que é de 80%, prejudicando os 45% que utilizam o ônibus comum, para os quais só existem 20% nos espaços das vias de rolamento.

Considerando-se que, segundo as mesmas estatísticas, do crescimento anual  da nossa frota de carros, terá chegado a níveis insuportáveis, até que se tenha uma rede de metrô capaz de suprir  a preguiça e o conforto do usuário do carro. A falta de mobilidade urbana continuará poluindo o  ar e aumentando o número de cariocas estressados.

Então, o problema é diminuir o número de carros, de maneira inteligente e socialmente justa, considerando–se que o trânsito urbano é, segundo a ONU, o terceiro problema social do mundo, só superado pela manutenção da paz e a fome.

Considerando estes aspectos, fruto dos quarenta anos de estudos e de vivência teórica e prática, foi que imaginei o sistema URV (Utilização Racional das Vias) como a única solução, a curto prazo, para restabelecer a mobilidade urbana, na medida em que será capaz de reduzir, na hora de pique matutino o volume de tráfego dos carros entre 50 e 80%. Além disso, irá gerar recursos capazes de subsidiar o transporte público, desonerando os 45% que o utilizam, dos constantes aumentos de passagem.

Embora tal solução, para quem enxerga o problema, seja óbvia, o que me causa espécie é que ninguém, político ou técnico, a quem apresentei esta solução, não se emocionaram. Só houve uma exceção: a do competente Roberto Scaringella, então presidente da CET-São Paulo, que, infelizmente, não conseguiu vencer a covardia política de seu prefeito. E note-se: faço isto desde 2008, quando o expus, em São Paulo, no XVI CONGRESSO E EXPOSIÇÃO INTERNACIONAIS DE TECNOLOGIA DA MOBILIDADE, promovido pela Sociedade de Engenheiros de Mobilidade.

Não posso atribuir o fato de não haverem entendido, uma vez que foi exaustivamente explicado. Está bem que tenham medo de não funcionar, embora lhes tenha dado o exemplo de uma atitude in extremis, muito semelhante, tomada pelo prefeito de Nova York, durante uma greve de transportes em dezembro de 2005.

Só me resta, muito constrangido, atribuir este desinteresse ao que dizia o padre Antônio Vieira: “Nada incomoda  mais do que ter mais conhecimento”.

 

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com   

Tags: Celso, coluna, franco, segunda, Trânsito

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