Gaivotas versus tatus
Quando vejo a atual preocupação de urbanistas, técnicos de transporte, professores da Coppe, todos que se preocupam com a ocupação predatória da Barra, onde se pretende localizar importantes eventos da Olimpíada, achei de bom alvitre repetir o meu artigo publicado na edição do JB, de sábado, 15/10/1988, com o título deste artigo. Ei-lo, na íntegra:
As cidades alemães arrasadas durante a guerra sob os bombardeios aéreos, quando de sua reconstrução, tiveram o cuidado de levar em consideração a existência do automóvel e a sua integração às áreas urbanas. Partiram de uma filosofia simplista de controle do uso da terra, de densidade de ocupação e fizeram do trânsito criado pelo transporte o grande urbanista. Preservaram as áreas centrais da invasão do intruso automóvel e nelas criaram as “zonas de pedestres” com o excelente slogan : “A evolução da terra ao seu legítimo dono: o homem a pé”.
Em volta desta área central despoluída dos gazes dos veículos, estabeleceram três anéis concêntricos de circulação de tráfego por onde circulam os transportes de superfície. Penetrando no santuário dos pedestres somente o veículo não poluidor, o transporte de massa de propulsão elétrica, quer subterrâneo, quer de superfície (U-bahn e S-bahn).
Conseguiram limitar as suas populações urbanas em um a um e meio milhão de habitantes, no máximo. Criaram o paraíso, integrando flores, com a arquitetura remanescente dos séculos passados e a arquitetura atual.
Os veículos particulares desapareceram como por encanto, em edifícios-garagens permitindo ao turista fotografar as suas belas cidades sem a poluição do automóvel estacionado.
E nós, no Rio, como nos comportamos?
Em 1975 criamos a Operação Cidadela estabelecendo uma imensa área de pedestres no centro do Rio (que mereceu exemplar crônica do poeta maior Carlos Drumond de Andrade), onde se pretendia restituir ao pedestre o seu espaço urbano, aproveitando a vocação da área para sua implantação. Vemos hoje essa área invadida por veículos estacionados, até sobre o passeio, usurpando uma área que não lhes pertence.
O Rio, cidade longilínea, não radial como as alemães, não pode ter os seus anéis concêntricos, mas poderá obedecer ao mesmo conceito, adaptando-o às nossas características. O corredor central pode ser formado pelo binômio Avenida Rio Branco e Avenida Antonio Carlos-Primeiro de Março.Estes eixos envolvem a área atingida pela Operação Cidadela, que ainda se extravasa pela Rua Uruguaiana-Largo da Carioca, que se vê envolvido pelo binômio Avenida Rio Branco-Avenida Passos-Avenida República do Paraguai.
Tivéssemos a Avenida Rio Branco em mão dupla, exclusiva para o transporte público (ônibus e táxis), durante o período das 8 às 20 horas, tipo Oxford Street, em Londres, e teríamos talvez menos poluição dos veículos particulares.
É verdade que deveríamos ter mais de um edifício-garagem, tipo Menezes Cortes, mas, sem dúvida, melhoraríamos o que hoje se vê.
O segundo anel funciona “capenga” através da Perimetral e do Túnel Santa Bárbara e seus acessos. Digo que funciona “capenga”, porque muitas linhas de ônibus que hoje cruzam a Avenida Rio Branco e a Avenida.Antônio Carlos deveriam ser deslocadas para o segundo anel aliviando o anel interno. Penetrando na área a ser preservada, temos o metrô.
Fica-nos faltando o terceiro anel, que iria desafogar os dois aqui citados, e este é, sem dúvida, o transporte marítimo.
Até hoje não sei por que não existe uma linha regular de aerobarco ligando o bairro da Urca ao Centro da cidade.
Embarcações confortáveis e modernas já ligam as cidades da Costa Brava no sul da Espanha.Têm até horário, como se fossem trem.
Embarcações rápidas e modernas ligariam, em pouco mais de 30 minutos, os bairros da Barra da Tijuca e o Recreio, ao Centro. Em muito menor tempo ligariam Leblon, Ipanema e Copacabana. Existem tipos de barcos capazes de encalhar na praia dispensando obras vultosas de estações de embarque e de desembarque. Outros, mais sofisticados, tipo Overcraft, não balançam. Flutuam sobre um colchão de ar e são capazes de desenvolver 75 km/h. Exigem, no entanto, estações de embarque e desembarque. Milhares de veículos particulares ficariam em suas garagens.
Se já existe em alguns países o sistema Park and Ride aqui seria o Park and Sail. Estaríamos estabelecendo parte do terceiro anel e seguindo o modelo que foi imaginado para permitir a convivência do homem, do veículo e a cidade moderna. Estaríamos ocupando o que nos pertence, da mesma forma que fomos buscar no mar o petróleo que nos levará à nossa autossuficiência.
Deixemos de ser míopes, de não sermos ousados, e sejamos dignos de nossos colonizadores que partiram de Sagres, em minúsculas caravelas, para criar um império, no século 16.
No limiar de uma eleição municipal tem o futuro prefeito a oportunidade de passar à história mudando o modelo de transporte desta cidade marítima, que teima em dar as costas para o mar e sufocar-se buscando soluções de transporte em baixo da terra, como tatus, em vez de usufruir a liberdade e ar puro do mar, como fazem as gaivotas.
* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com
