Ecos do Natal que passou
É a época de paz na terra aos homens de boa vontade e glória a Deus nas alturas. Deveria ser, mas, para, segundo a mídia, mais de 250 motoristas autuados pela Lei Seca, dos quais mais de 70, tiveram a CNH recolhida, não houve paz nem glorificaram a Deus. Não fora a fiscalização e, quem sabe, alguns dos punidos teriam glorificado a Deus, pessoalmente, em seu Reino da Glória.
De minha parte, como de um certo tempo para cá, vou para casa de meu filho mais velho para, em companhia de meus outros três filhos (duas moças e um moço) e famílias, com minha mulher, festejarmos a data, com a ceia de Natal, na Mãe Pátria, chamada de consoada.
A grande motivação, além da alegria do convívio familiar, é o menu, preparado pelo anfitrião, que se despe da beca de advogado e a substitui pelo avental de “chef”, produzindo uma lasanha, sonhada durante todo o ano e, para mim, também um sonho anual, um peru assado no forno, normalmente pesando 10 quilos, acompanhado da nossa farofa brasileira e de um molho divino.
Para me deslocar, da Barra, onde resido, até a casa de meu filho, na Rua Marquês de São Vidente, peguei a carona de meu genro, marido de minha filha mais velha, recompensando-o com a proposta de eu me manter abstêmio e dirigir na volta.
Alem de ter a oportunidade única de dirigir um Mercedes 250 e o prazer de demonstrar como se pode evitar a fiscalização da Lei Seca, compensaram plenamente o sacrifício de passar a noite bebendo suco de uva. Regressamos, cerca de uma hora do dia 25, da Rua Marquês de São Vicente, entramos à direita na Rua Rubens Berardo, em direção à Avenida Visconde de Albuquerque, em demanda da Avenida Niemeyer. Ao contornarmos, por baixo do viaduto que demanda o Túnel Zuzu Angel, pudemos apreciar a fiscalização, no acesso a ele, e o congestionamento que se formou sobre ele.
Atingimos com imensa facilidade, pela ausência de tráfego, o final da Avenida Niemeyer, quando fizemos o retorno sob o viaduto que liga São Conrado ao Túnel Zuzu Angel, trafegando pela pista de baixo, junto ao Gávea Golf Clube, atingimos, ainda com a facilidade da ausência de tráfego, a subida para o Juá, chegando facilmente à estrada da Barra e, antes, podendo observar o tremendo congestionamento dos que se dirigiam àquele bairro, pela orla marítima e seus túneis, trafegando pelo Elevado das Bandeiras.
De tudo que aqui narrei fica a lição do respeito à Lei Seca, das falhas da fiscalização desta lei e de que o motorista é um ser condicionado, aos caminhos que sempre faz, como os ratinhos de Pavlov e, acima de tudo, um irresponsável na falsa ilusão da imortalidade.
Afinal, como escreveu o autor francês Paul Guimard, em seu livro premiado, Les choses de la vie, onde descreve de maneira realística impressionante um acidente fatal de trânsito, narrado pela vítima, conclui, ao seu final, com a seguinte advertência: “Não se impressione o leitor com o que acabou de ler neste livro, afinal são os outros motoristas que morrem em acidente de trânsito, você é imortal”.
*Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com
