Quando a ordem dos fatores altera o produto
É por demais conhecida norma matemática de que a ordem dos fatores não altera o produto mas, no caso do urbanismo, é como está escrito no título. Trata-se da notícia do importante projeto de construção das cinco Torres Trump, na área de influência do projeto Porto Maravilha, ali, na Avenida Francisco Bicalho. Na matéria que vi, na mídia escrita, aparecia a simulação destas construções no contexto daquela avenida e, me parece, um fato consumado.
Várias opiniões de arquitetos a favor ou contra a estética dos prédios, sobre o que a mim nada cabe dizer, por não ser a minha praia. A minha, que é a área do trânsito — onde a praia que eu frequento é tão vazia que posso fazer nudismo — me permite fazer algumas observações.
Para começar, vou transcrever a opinião que o jornal que publicou a matéria reproduz: “Sobre o impacto viário, especialistas em trânsito dizem não ter elementos de análise, porque o plano de reordenamento do tráfego na região está em andamento”. E complementa dizendo que a arquiteta Gizzele Gomes Rocha, que faz parte da equipe brasileira que desenvolve o projeto, adiantou que serão feitos estudos do impacto de trânsito para o projeto.
É neste ponto que a ordem dos fatores influi no resultado. O Código de Trânsito Brasileiro, ignorado por uma imensa maioria de brasileiros, estabelece no seu artigo 93: “Nenhum projeto de edificação que possa transformar-se em polo atrativo de trânsito poderá ser aprovado sem prévia anuência do órgão ou entidade com circunscrição sobre a via e sem que do projeto conste área para estacionamento e indicação das vias de acesso adequadas”.
Se os investidores afirmam, e eu acredito, que os prédios respeitam as normas e leis vigentes para área, o que dizer do respeito ao artigo 93 do Código de Trânsito?
Se, como afirmam, não se tem um plano definitivo de circulação na área, estão, no mínimo, colocando o carro adiante dos bois. É verdade que um projeto deste vulto e de tamanha importância para a revitalização daquela área exige um estudo de profissionais calejados e experientes que viabilizem a sua realização.
Projeto muito semelhante, pelo impacto que poderia causar, foi a construção do Shopping Rio Sul, na década de 70, colocado na saída do Túnel Novo, sentido Aterro do Flamengo e Praia de Botafogo. A área de construção exígua, que obrigou ao seu genial projetista, o meu colega de colégio e saudoso amigo arquiteto Ulisses Burlamaqui, a projetá-lo verticalmente, tornando complexa a sua circulação interna, precisava da tal anuência do governo da GB, para a autorização da construção. Pela ligação de fraterna amizade que o seu projetista matinha comigo e com meu sócio, também nosso colega de colégio Gerardo Penna Firme, fomos contratados, pelo Grupo Ducal, que era o dono do projeto, para resolver o problema do impacto na área.
Procuramos fazer com que o movimento do shopping não interferisse nem no tráfego de passagem nem na área em torno. Projetamos a entrada do tráfego oriundo da zona central entrando pela cota 36, por sobre o Túnel Novo, e com a saída do tráfego destinado à Zona Sul, em cota mais elevada, com destino aos arcos no topo da Ladeira do Leme. Quanto ao tráfego oriundo da Zona Sul, a sua entrada passou a ser feita por trás do conjunto e saindo para a Avenida Pasteur, rumo ao Centro. Foi assim que acomodamos na garagem projetada para 5 mil carros,entrando e saindo diariamente, sem que ninguém se dê conta.
Ainda previmos a instalação, caso fosse necessário, de um minicomputados, capaz de controlar a saída da garagem, em função das informações do tráfego externo, a fim de perturbar, o mínimo, o escoamento no entorno do empreendimento. Em outras palavras, poderia congestionar a saída dos veículos, nunca a circulação da área. Este é, até hoje, o maior projeto que realizamos, Gerardo e eu.
Aos atuais técnicos fica o conselho da voz da experiência: a viabilidade da circulação do tráfego do empreendimento independe do esquema futuro, ela deve ser autossuficiente.
* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com
