Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Trânsito

O preço do descaso

Jornal do BrasilCelso Franco*

Em junho de 1977 um grupo de 25 especialistas de trânsito e urbanismo, dentre os quais  seis brasileiros, eu inclusive, todos de países do Terceiro Mundo, atendendo a especial convite do Deutsche Stiftung für Internationale Entwcklung, situado em Berlim, compareceu a um seminário sobre O problema do trânsito nos conglomerados urbanos.

Foram duas semanas de duro aprendizado, começando as conferências de eméritos professores às sete da manhã e terminado às sete da noite, diariamente.

Dentre os assuntos tratados, abrangendo todo o macroproblema, destacou-se o tema Controle  da migração urbana, para nós, brasileiros, ali presentes, um verdadeiro mistério. Ninguém, dentre nós, tinha ouvido falar no assunto, e, note-se, havia um urbanista de escol no grupo. Neste tema, brilhou a delegação da Índia. No desenvolvimento deste assunto, foi-nos ensinado, por ser este fenômeno a principal origem das favelas, que, se nada mudasse em termos sociais ou de controle do uso da terra, até o final da primeira década do século 21, mais de 50% dos habitantes das cidades principais dos países de onde éramos oriundos, estariam vivendo em favelas ou sub-habitações. Ensinaram-nos como erradicá-las, de maneira socialmente justa para com seus moradores, num processo que duraria de 30 a 50 anos para ser concluído, ou seja, uma geração.

Como uma das conclusões do seminário sobre este tema, transcrevo o seguinte texto:

“O transporte não é o fator principal que influencia a migração urbana, mas as necessidades mínimas de vida, nas áreas rurais, que devem ser verificadas e corrigidas, se  não quisermos  que haja um forte declínio de eficiência nos serviços de transporte e mobilidade do trânsito nas áreas urbanas. As medidas contra a migração para as áreas urbanas poderão variar, desde a dispersão das atividades econômicas, geradoras de empregos, ao desenvolvimento de outros polos periféricos, alternativas que estejam em crescimento, melhoria dos serviços rurais, incluindo melhor retorno para a comercialização dos seus  produtos, até a medida extrema de um registro compulsório dos migrantes rurais e a sua consequente repatriação às suas origens”.

No nosso caso, o término do vergonhoso e humilhante para todos nós, brasileiros, dos flagelos da seca geraria um regresso maciço de nordestinos aos seus queridos rincões, provocando um movimento inverso da migração para as cidades. A nenhum de nós, que comparecemos a este importante seminário, foi indagado nada quando regressamos, e os poucos que tentaram se fazer ouvir não obtiveram eco dos seus governantes.

Em 1964, em seu famoso e clássico livro Traffic in towns, o mestre inglês Collin Buchanan assim se referiu ao problema do tráfego urbano:

“Uma brevíssima análise das condições que hoje prevalecem na maioria das cidades, nos mostra claramente que os congestionamentos já se colocam como a grande causa dos prejuízos ao bem-estar de muitos habitantes e à eficiência de suas atividades. O aumento potencial do número de veículos é tão grande que, a menos que algo se faça, esta situação tornar-se-á extremamente séria em curto período de tempo. Ou a utilização do automóvel particular declina rapidamente, ou o meio ambiente e a segurança irão se deteriorar catastroficamente, com toda a probabilidade de ambos acontecerem simultaneamente”.

Por tudo isso que acabaram de ler, eu, um buchanista, ex-aluno da Fundação Germânica para o Desenvolvimento Internacional, produzi o sistema URV, o algo mais que irá, em parte, diminuir o quadro tão claramente pintado por Buchanan, em 1964. Até agora, como em 1977, o descaso dos governantes continua o mesmo. O preço que pagamos, por este procedimento, aparece todos os dias nos noticiários vespertinos dos jornais de TV.

 

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com 

Tags: Celso, coluna, franco, segunda, Trânsito

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