Comentários, de terceiros, sobre o BRT
Na edição do dia 22 do mês que passou, O Globo, sob o título BRT aumenta número de usuários de ônibus publicou matéria sobre este novo meio de transporte de massa, com opiniões de alguns especialistas teóricos. Considero teórico todo aquele que jamais exerceu um cargo executivo no setor de transportes ou de trânsito, o que é, aliás, a maioria dos que são consultados por aquele jornal.
É bem conhecido o jargão de que na prática a teoria é diferente. E como é! Dois professores, de competência inconteste, consultados, não foram a fundo na questão. Um comenta a necessidade de terminar a superposição das linhas de ônibus, fato tão difícil de se realizar que o projeto contratado com a Coppe — que terminava com esta aberração: foi realizado pelo professor que fez a observação durante o governo Luiz Paulo Conde — não foi implantado até hoje. É preciso que saibam que a disputa de linhas já originou crime de morte, em passado não muito remoto. É um vespeiro.
O outro professor adverte inocentemente: “A nossa economia não poderia continuar se baseando tanto no carro e no petróleo”. Seguir tal aconselhamento seria andar na contramão do mundo. Quando fui prestar consultoria na reformulação do trânsito na área central da cidade de São Paulo, em 1973-74 (período mais feliz de minha vida profissional), juntamente com a Sondotécnica, de Jaime Rotstein, fomos alertados pelo então prefeito e economista de escol Miguel Colassuono para que não aporrinhássemos (a expressão é dele) o automóvel, pois que a indústria automobilítica era a líder, a que impulsionava a economia nacional. E concluía enfatizando o fato de não ser prefeito, apenas estar prefeito e que era economista originário da escola do professor Delfim Netto.
Finalmente, uma opinião lógica e condizente com o problema da mobilidade urbana — e, por isso, cito o nome do declarante: economista e ecologista Sérgio Besserman. Disse ele: “O futuro é o da mobilidade inteligente. Precisamos de transporte público eficiente e de usar mais a informática para reduzir a mobilidade burra. O carro continuará a ser uma disponibilidade individual, mas de uso inteligente”.
É exatamente o que postulo há muito nos artigos que escrevo, quando imploro pelo controle semafórico informatizado, informado pelo perfil real do tráfego que ele controla e sugiro o emprego do sistema URV, que elimina o uso burro do automóvel, transformando-o de colesterol ruim (o ldl) em colesterol bom (o hdl). Tudo o que até agora apelei, para que implantassem a fim melhorar a mobilidade urbana, se faz, como o economista Besserman recomenda, utilizando a informática.
O aumento modesto de 5% de utilitários de ônibus, supostamente deixando de utilizar seus carros, é ridículo, se compararmos com a redução de 50 a 80% prevista, se utilizarmos o sistema URV, aquele do transporte solidário entre donos de carros de passeio, controlado por um sistema informatizado.
Como o papel aceita tudo, continuaremos a ler, na mídia impressa, opiniões que não levam a coisa alguma, salvo, como a citada opinião sensata, por coincidência de um economista, como o então prefeito de São Paulo, que trouxe a engenharia para o município, antes que o atual código de trânsito assim o exigisse, e teve a humildade de contratar uma consultoria de larga experiência, que reformulou modernizando o trânsito do centro de São Paulo.
* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com
