A aposta no transporte
Li, na mídia, sob a manchete do título deste artigo, que o governo federal, finalmente, numa louvável demonstração de humildade e perfeito conhecimento do que significa governar numa República democrática: convocar a classe empresarial para salvar o calamitoso estado de nossos transportes. Digo perfeito conhecimento de governar uma República porque este sistema de governo veio substituir o poder absoluto do soberano pelo poder do povo, delegado aos seus representantes, para que em seu nome seja exercido. Não é por acaso que o texto da Constituição dos Estados Unidos da América, a maior democracia do mundo, começa com a frase: “Nós, o povo ...”.
Está o governo, finalmente, despertando para a importância do transporte para a economia nacional. O presidente Washington Luiz costumava dizer: “Governar é abrir estradas”. Quando estagiei na Alemanha, no setor de trânsito, em1968, notei que o transporte se situava no mesmo ministério que a economia. Absolutamente lógico.
O presidente Juscelino, quando assumiu, anunciou o seu lema: Energia e transporte. O ministro da área de viação e obras, almirante Lúcio Meira, que acumulava tantos encargos que nos governos que o seguiram gerou cinco ministérios, certa vez me disse: “Coube à Marinha integrar politicamente o Brasil recém-independente e, ao senhor, um marinheiro, integrá-lo fisicamente, ligando por estradas todas as capitais a Brasília”.
O programa de construção e conclusão de rodovias atingiu o seu ápice nas gestões dos ministros, agora dos Transportes, Mário Andreazza e Elizeu Rezende, quando prosperaram várias empresas de sinalização do ramo rodoviário. Foi, também, na gestão de Mário Andreazza que se estabeleceu, nas concorrências, verba específica e padrões mínimos para a sinalização gráfica das novas rodovias. Anteriormente, este detalhe era fruto das sobras da obra de engenharia, o que tornava muito deficiente este importante item de segurança.
A minha geração que viveu a Segunda Guerra Mundial, cuja medalha de serviços prestados na Marinha naquele conflito eu conservo, recorda-se de quantos sacrifícios e vidas humanas custaram a nós, das Marinhas, mercante e de guerra, por não termos estradas ligando o Sul e o Sudeste ao Nordeste. Não tiveram direito a mausoléus os que morreram no mar. Repousam no fundo do Oceano Atlântico.
Vejo com esperança e otimismo, esperando que aos empresários capazes de empreenderem esta tarefa, não faltem vontade e patriotismo para realizá-la, como não faltou à minha geração, quando atendeu ao chamamento da Pátria agredida na Segunda Guerra Mundial.
Que de fato sejam construídas principalmente as ferrovias, e não ocorra, como a mesma mídia denunciou, o que ocorreu no governo anterior em que a maioria das melhorias não saiu do papel.
Que se convoquem os melhores especialistas para efetuar esta importante contribuição para a economia do Brasil, hoje entre as maiores do mundo e que os modernos recursos de sinalização e de trânsito seguro possam dar um basta ao sorvedouro de vidas em que estão transformadas as nossas atuais e obsoletas rodovias.
Que assim seja.
* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com
