Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Trânsito

At last (Finalmente) 

Jornal do BrasilCelso Franco* 

A colocação do título em inglês se deve à necessidade de fazer referência à canção americana, de mesmo nome, magistralmente imortalizada por Glenn Miller, nos anos 40 do século que passou. É necessário que se repita o seu primeiro verso, quando diz: “Finalmente, o meu amor voltou”. Refiro-me à auspiciosa notícia de que o velho bonde vai voltar às ruas do Rio, sob o nome de VLT, incluído no projeto de revitalização do porto.

O velho bonde fez parte importante de minha geração. Utilizei-o durante o meu tempo de ginásio, usando o passe de meio tostão, que era vendido aos estudantes. Confortável, arejado e, acima de tudo, democrático, sem distinção de classes ou de trajes dos seus usuários. Havia um espírito de solidariedade demonstrado em se segurar, junto com os embrulhos ou pastas dos que, por falta de lugar sentado, viajavam no estribo. O famoso alerta do condutor, ao passar por um veículo de maior porte estacionado, de “olhar à direita”, enquanto tocava a sineta de parada, e de seguir, continuamente.Utilizei-o, inclusive, após terminar no colégio o ciclo ginasial e passar a frequentar, agora no Centro, o curso preparatório para a Escola Naval.

Ao me matricular, aprovado no concurso para aquela escola e me tornar aspirante à Guarda Marinha, tive que deixar de viajar de bonde quando ia fardado. Era proibido por ser considerado o bonde um transporte de categoria social inferior a nós, aspirantes, se íamos vestidos com a farda. A Marinha sempre foi uma elite, e como tal nos barrava este meio de transporte.Mais tarde, os bondes foram sendo extintos e substituídos pelos ônibus — um erro crasso!

Voltei a encontrar o bonde e usá-lo quando estive na Holanda, na cidade de Haia, entre 1958 e 1960. Eram fantásticos como, espero, serão os VLTs. Rápidos, confortáveis, climatizados e tendo direito a absoluta prioridade no trânsito. Só voltaria a ter contato indireto com eles quando, em 1967, assumi o Detran da velha Guanabara. 

Ao assumir o desafio, fiz as primeiras inspeções às suas dependências a fim de conhecer meus funcionários. Foi quando, passando pelo setor de policiamento, me despertou a atenção um funcionário, de cabelos encanecidos, trajando terno completo e gravata. Perguntei-lhe quem o havia nomeado, e ele me disse: "Foi o coronel Fontenelle". Observei que era um bom começo ter sido contratado pelo grande diretor que Fontenelle foi. Quis saber também da sua origem. Respondeu-me que tinha sido, durante mais de vinte anos, o responsável pela distribuição das linhas de bondes e ônibus da Light. Isso me fez passar para outra pergunta:  “E o que faz aqui, na divisão de policiamento?”. A resposta foi objetiva e simplória, traço de sua personalidade: “Não sei, colocaram-me aqui quando o coronel Fontenelle saiu”. Foi imediatamente colocado na divisão de engenharia e, a partir daquele momento, jamais se alterou ou iniciou algum trajeto de linha de ônibus sem o aval do exemplar funcionário Augusto Calsavara.

Vejo a volta dos bondes, travestidos de VLT, como uma volta dos cariocas às suas tradições. Infelizmente, será num pequeno trecho, mas servirá de amostragem, para os governantes e usuários, das enormes vantagens do transporte de massa sobre trilhos. Por feliz coincidência, na última semana, eu escrevia sobre este fato sem saber que iriam ressuscitar o velho e querido bonde.

Por uma questão de gratidão, apesar de tudo que deles me queixo, deverá ser dada preferência aos atuais empresários de ônibus, e assim será mais fácil conseguir deles a substituição, paulatina, de parte de seus ônibus pelos VLT, com tarifas baixas, subsidiadas pelo automóvel sujeito ao sistema URV, capaz de gerar 4 milhões de reais para cada 100 mil veículos particulares circulantes.

Era esta a homenagem que me cabia fazer e relembrar um pouco da história recente desta cidade aos responsáveis pela iniciativa, fruto do simples bom-senso. 

*Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com

Tags: Artigo, Celso, coluna, franco, JB

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