Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Trânsito

Recordando João Saldanha 

Jornal do BrasilCelso Franco* 

Na segunda feira que passou, dia 13, abro o jornal e vejo que um ônibus, em velocidade acima daquela que deveria trafegar, 60 km/h — se a minha Ordem de Serviço, expedida em 1975, que exigia a bomba injetora Bosch lacrada, para aquela velocidade como máxima, ainda vale — “carambolou” vários carros estacionados em São Conrado, logo após a saída do Túnel Zuzu Angel. Infelizmente, o principal meio de transporte do Rio, ou o que mais passageiros transporta, ainda caminha na contramão do mundo civilizado, visando o lucro.

Quando defendo o sistema URV, pelo qual o carro particular subsidiaria o transporte por ônibus, a fim de equacionar o atual sistema de concessão de exploração deste serviço, é na tentativa de favorecer o trabalhador assalariado, que sofre com o preço, para ele elevado, do transporte público. E é neste ponto que irei transcrever parte do texto do meu saudoso amigo João Saldanha, publicado na edição deste JB, de 7/12/88 — portanto, há  quase um quarto de século. Vamos a ele:

“Quando a Light era monopolista, aqui no Rio, nos jogos do campo do Vasco e do Fluminense, botavam bondes e ônibus que ficavam esperando o jogo acabar. No Maracanã foi assim. Mas, a corrupção e o suborno fizeram acabar. Os ônibus são para prestar serviço e não para dar lucros fantásticos, como o que estes indivíduos, seus proprietários, abocanham .Eles dizem abertamente: “Com mais de oito cadáveres já estou no lucro”. E os cadáveres somos nós. Corrompem o poder público, andam por onde querem, violentam o trânsito, e os seus prepostos são os que fixam os preços e itinerários. Ninguém sofre mais do que o pobre coitado que se atreve a ir a um jogo noturno. Fica horas sentado num meio-fio à mercê da intempérie e do assaltante”.

E, mais adiante, citando–me, porque eu tinha um programa de comentários de trânsito, na rádio JB AM: “Celso Franco me disse um dia, aí em cima, na Rádio Jornal do Brasil, quando reclamávamos da violência e dos péssimos serviços de ônibus: 'O que querem? Os donos dos ônibus são antigos donos daqueles lotações criminosos que havia no Rio. A ideia que eles têm de transporte é a do lucro. Transporte não é para dar lucro. É para prestar serviço. O lucro será social com a satisfação e produção de um povo bem transportado e a baixo preço'”

“E está certo. Em muitas cidades de vários países ou o preço da passagem é nenhum ou é quase simbólico. Os ônibus brasileiros, montados em carroceria de caminhão, fazem o que querem no trânsito”.

Eis aí o desabafo de um usuário que, por sua coragem, foi apelidado de João sem Medo.Este era o quadro da época. De lá para cá muita coisa melhorou. Algumas não mudaram, nem mudarão nunca, enquanto funcionarem no sistema de concessionários. Só, como serviço arrendado, se poderá colocá-los nos trilhos, como se fosse o serviço prestado pelos saudosos e bem comportados bondes.

Deixo aos leitores a conclusão. Eles que avaliem o que melhorou e o que ficou igual ou pior neste quase quarto de século decorrido, desde quando João sem Medo escreveu um artigo com o significativo título: Os cadáveres.

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* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com

Tags: Celso, coluna, franco, segunda, Trânsito

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