Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Trânsito

Rio, Patrimônio da Unesco 

Jornal do BrasilCelso Franco* 

Não foi nenhuma surpresa o Rio ser escolhido como patrimônio paisagístico da humanidade, apesar dos homens que tiveram a chance de modificar a sua paisagem, quando no exercício de governá-la. Não era por acaso que o governador Francisco Negrão de Lima sempre nos advertia que tivéssemos cuidado em nossas intervenções para não mutilarmos a obra do arquiteto maior que, aliás, criou o Universo, em perfeita harmonia, entre seus componentes, em suas órbitas tão bem definidas pelas leis de  Kleper. No regozijo natural de quem vive ou aqui nasceu, é necessário que se destaque, e também se homenageie, os que, quando com poderes de intervir no Rio, souberam fazê-lo, preservando a obra do seu Criador. Contrariaram a expressão de Le Courbisier que, ao visitar, pela primeira vez o Rio, na década de 20, exclamou, ao observar a cidade do alto de uma de suas montanhas, junto com o mar que a emolduram: “Que pena que o homem um dia, com suas intervenções, a fim facilitar a ocupação e o deslocamento de seus habitantes, irá destruir toda esta beleza”.

E quem foram estes abnegados heróis anônimos?

Comecemos com dom João VI, que nos legou, entre outras obras eternas, o nosso Jardim Botânico, onde se destacam as suas majestosas palmeiras imperiais. Mais tarde, bem mais tarde, o prefeito Pereira Passos, que convocou o arquiteto Alfred Agache, nos deu o primeiro plano urbanístico, além de ter rasgado a Avenida Rio Branco, na época Avenida Central, com o espetacular trabalho de construção e planejamento do arquiteto italiano Antônio Jannuzzi, além do desmonte do Morro do Castelo, aproximando o centro da cidade do mar e a Avenida Niemeyer, abrindo acesso à Zona Oeste. Pelas obras que realizou no Rio, seguindo o planejamento de Agache, mereceu o apelido de Haussman Carioca, honroso paralelo com o planejador e reconstrutor  de Paris.

Henrique Dodsworth, prefeito no governo Vargas, que rasgou a Avenida Presidente Vargas, terminando com vias estreitas e de construções de mau gosto, dando à cidade uma avenida com a grandiosidade que ela merecia. Francisco Negrão de Lima, prefeito, com o desmonte do Morro de Santo Antônio e a criação do Aterro do Flamengo, que desafogou a ligação Centro-Zona Sul.

Carlos Lacerda, primeiro governador do estado da Guanabara, a quem coube urbanizar o  Aterro do Flamengo, criando o seu magnífico parque, projetado por Burle Max, e entregando-o à zelosa guarda de dona Lota de Macedo Soares, além de rasgar o Túnel Rebouças, sob a responsabilidade de um jovem engenheiro, Marcos Tamoio, que mais tarde também daria a sua contribuição para o Rio, como prefeito. Convocou Constantino Doxiadis, urbanista grego, à época o maior do mundo, para planejar o futuro urbanístico da cidade. São fruto de seu planejamento as vias expressas Vermelha e Amarela, além da localização e constrição do centro administrativo da prefeitura na Cidade Nova.

Francisco Negrão de Lima, como governador, após Carlos Lacerda, prosseguindo no aprimoramento e acabamento das obras citadas de seu antecessor, além de, com a dinâmica atuação de seu secretário de Obras, Raimundo Paula Soares, realizar a ciclópica obra do alargamento da Avenida Atlântica e a estrada Lagoa-Barra integrando o novo bairro à cidade. Finalmente, a administração do governador Faria Lima, que deu à cidade o metrô e concluiu a Avenida Perimetral, Juscelino Kubitschek, preservando o tráfego do centro da cidade.

Ao citar alguns nomes que me ocorreram na memória, estou prestando um preito de gratidão de quem, graças a eles, conseguiu fazer fluir o tráfego do Rio, quando tive sobre meus ombros a responsabilidade de ser o responsável por gerir esta superfunção urbana, numa cidade que tinha o destino traçado para ser patrimônio universal.

Rogo aos Céus que, agora com este título, a responsabilidade em preservá-lo vença a vaidade de seus governantes em realizar novas e às vezes desnecessárias intervenções no seu, como gostam de falar os tecnocratas, tecido urbano. 

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com

Tags: celso franco, coluna, JB, patrimônio, Rio, Trânsito

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