Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Trânsito

Inaceitável, vergonhoso e imperdoável

Jornal do BrasilCelso Franco* 

Tomei conhecimento pela mídia, indignado, do acidente com um ônibus desgovernado e em excessiva velocidade, que invadiu um ponto de parada, matando cinco e ferindo vinte uma pessoas. É mais um acidente com ônibus, com um número de vítimas de acidente aéreo.

Vamos recuar no tempo, quando o carioca sabia quem era o responsável pela circulação do tráfego, até porque o via nas ruas dirigindo e fiscalizando o mesmo. O imenso poder econômico dos que exploram este tipo de transporte que, na contramão do mundo civilizado, é um negócio altamente lucrativo, sempre fizeram o que lhes aprouvesse no trânsito carioca. Era preciso muita coragem para domesticá-los, até porque eram uma enorme fonte de renda para os fiscalizadores corruptos.

Quando assumi o Detran GB, em 1967, recém-passado à reserva do serviço ativo da Marinha, com apenas 41 anos, estava saindo de um ambiente onde se apontavam os poucos desonestos, que eram banidos, e entrando num ambiente onde se apontavam os honestos. A “galinha dos ovos de ouro” era a fiscalização dos ônibus. Com o propósito de honrar a confiança em mim depositada e com a coragem moral herdada de meu pai, resolvi enfrentar os desonestos, contando com a colaboração do então presidente do sindicato dos empresários, Paulo Silva, para tomar as seguintes providências:

1) Mandei pintar no teto dos ônibus os seu número de série, e os fiscalizava de helicóptero ou com colaboradores voluntários, que os fotografavam do alto de seus apartamentos, nos eixos mais movimentados.

2) Coloquei os tubos de descarga de gazes na sua posição normal, para baixo, uma vez que, burramente, estavam voltados para cima, empestando o ar e impedindo a fiscalizaçãodo teor de CO, pois os equipamentos Bosch funcionam com a amostragem do gás expelido, colhido na saída das descargas.

3) Mandei lacrar as injetoras Bosch, com a colaboração do fabricante, limitando a velocidade máxima em 60km/h. Não satisfeito com esta medida, obriguei a terem, na sua janela traseira, um plástico com o símbolo regulamentar da velocidade limite, como forma de lembrete e meio educacional, uma vez que andavam em fila indiana.

4) Criei, nas avenidas Rio Branco e Nossa Senhora de Copacabana e na Rua Barata Ribeiro faixas exclusivas, por onde deveriam andar, só saindo delas para a ultrapassagem, nos pontos de paradas, com sua distribuição devidamente escalonada e seletiva.

5) Mandei desligar suas buzinas que, usavam como caixa de ressonância, poluindo a cidade.

6) Coloquei um serviço permanente de ronda de dois motociclistas policiando o seu comportamento nas pistas do Aterro do Flamengo.

7) Criei o serviço de inspeção com um grupo técnico especializado, que comparecia às garagens para verificar como estavam os veículos responsáveis pelo transporte público.

8) Acabei com a punição burra de recolher o coletivo irregular ao depósito. Em vez disso, tinha suas portas seladas e era recolhido à garagem, onde aguardaria, por solicitação de seu proprietário, a inspeção que o liberasse ou não.

9) Informatizei o sistema de multas, começando pelas deles, acabando com a vergonha do leilão anual do “nada consta”. Mereci, por isso, como intimidação, o metralhamento de meu carro oficial, estacionado na porta da minha casa, enquanto me preparava para um compromisso noturno.

Com estas medidas angariei o respeito da opinião pública e a inimizade dos proprietários, demonstrada quando sugeri a um dos membros da diretoria do Febratran, meu amigo, a compra de meu livro sobre o Código de Trânsito, aliado a palestras minhas, a fim de melhorar a conduta de seus motoristas, ter sido rechaçada ad nutum, quando o presidente daquele colegiado soube de quem era a proposta.

Com a autoridade de tudo isso que criei, e de que pouca coisa restou, tenho o direito de considerar o acidente ocorrido, sem maiores considerações, como: inaceitável, vergonhoso e imperdoável. 

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com

Tags: acidente, celso franco, coluna, onibus, Trânsito

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