Coisas do Terceiro Mundo
O Terceiro Mundo — do qual fazemos parte como um dos cinco países mais importantes, ou seja, o grupo BRICs — não merece esta classificação apenas por deficiência do valor do PIB mas, principalmente, pela falta de cultura. É ela, sem dúvida, a maior riqueza de uma nação. Uma grande nação se constitui de um povo culto, independentemente de sua área de superfície. Esta falta de cultura se reflete no governo, na medida em que ele é fruto do voto do povo.. Felizmente, eu me refugio no fato de só me preocupar com o que acontece no trânsito e, semanalmente, há mais de 40 anos, faço a minha análise do problema mais recente e que constitui também minha autoanálise, em termos freudianos.
Um exemplo típico da cultura terceiromundista está expressa na matéria com o título Linguagem dos sinais, publicada na revista dominical de O Globo.
Enfoca o trabalho dos chamados controladores do trânsito. Eles realizam um trabalho que, no Primeiro Mundo, é realizado por um sistema computadorizado. Lá, o policial de trânsito existe para forçar a obediência às leis, principalmente no que concerne ao mal crônico de invadir o cruzamento, quando não se poderá sair dele, na mudança do semáforo, de verde para o vermelho. Lá, a conscientização é maior, além da inevitável punição pela infração, também prevista no nosso Código de Trânsito, principalmente, pelo caráter educacional da sinalização. Nos cruzamentos, existe a placa com o inteligente alerta “Só entre no (e reproduzem a figura da rede do quadrilátero desenhado no solo) se puder sair dele”.Usei esta mensagem quando existia o acesso lateral ao Hospital Miguel Couto, na Gávea, cruzando o fluxo com destino e oriundo do Leblon e da Barra. Era raríssimo o seu desrespeito.
Como obra-prima da mentalidade terceiromundista, o registro na matéria de que o operador não multa — ele só opera, eu acresceria, em tom de blague, sem anestesia. Digo sem anestesia porque, quando operam, geralmente é para utilizar o obsoleto sistema de mandar o motorista dirigir por meio de apitos curtos, que infernizam os moradores do entorno do cruzamento. Sobre este hábito, interrompido no meu tempo, quando, ao observar um policial alemão, na cidade de München, apenas vez por outra gesticulava, para incentivar o motorista a andar, perguntei por que não apitava também, respondeu-me: “Para quê? Quem tem interesse em andar é o motorista. Eu tenho que permanecer aqui, nas minhas quatro horas de serviço. Além do mais, por que lhe mandar fazer o que ele deseja, mais do que eu, criando um som irritante, quando se lhe proíbe que use a buzina?”
O poder de multa é da Guarda Civil, quando interrompem o habitual bate-papo, entre eles, em grupos, reunidos nos cruzamentos.
Como prova final e que ratifica o que aqui afirmo, o trecho da entrevista, na matéria, em questão, quando um operador, experimentado e considerado eficiente, declara que, em caso de tempo do sinal, que ainda funciona, no sistema de tempo fixo, portanto “sinal burro”, está inadequado, ele avisa à central de controle da sinalização da área e, em no máximo três minutos, o problema é corrigido. Houvesse o controle computadorizado, autocomandado pelo fluxo do tráfego e a defasagem entre o real perfil do tráfego e o regido pelo controlador, seria de três, não minutos mas segundos. É assim em Londres, onde a Plessey, unida à Siemens, instalou o sistema Scoot, e a autoridade de trânsito teve a competência e o prefeito, a coragem de implantar o “Congestion charging” na área central da cidade, que me serviu de inspiração para criar o sistema URV. Aqui, a sugestão da criação da “taxa de congestionamento” (que a mentalidade terceiromundista jamais aceitará) para o motorista sozinho, nas horas de pico, o “colesterol ruim”. Ela foi adaptada à nossa, também comum no Terceiro Mundo, deficiência do transporte público, diferente do de Londres, que possui o melhor sistema de transporte público do mundo.
Para encerrar esta divagação sobre uma realidade que, eu temo, não acabará em curto prazo, quando vejo um notável esforço e uma grande esperança do governo municipal priorizando o transporte público, nada melhor, para sua reflexão do que o aconselhamento da genial frase do saudoso engenheiro de tráfego, meu diretor de Engenharia, Gerardo Penna Firme, quando, ao ser perguntado se o transporte de massa era a solução para o problema da mobilidade urbana, respondeu: “O transporte de massa, de superfície ou não, está para a solução do trânsito urbano como sexo para o casamento: ambos são muito importantes mas, sozinhos, não trazem a felicidade completa”.
* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com
