Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Trânsito

Um problema insolúvel? 

Jornal do BrasilCelso Franco* 

Recebi um gentil e-mail de um leitor, pasmem, desde os meus primórdios a escrever para o JB. Em virtude de tanta lealdade, vou tentar esclarecer o que não se pode entender. A observação é sobre a maneira como se portam, no trânsito, os ciclistas, triciclos, skates, os “burros sem rabo” (como ele chamou os veículos de tração humana) e outros menos votados. Apela, na sua consulta, para os meus conhecimentos adquiridos no exterior, especificamente na Holanda, na Alemanha e na Inglaterra.

É, principalmente, um problema de educação civil, presente em diversas ocasiões em nossa vida do dia a dia. É comum, por haver residido naqueles países, eu cumprimentar os presentes, ao entrar no elevador do Edifício-Garagem Menezes Côrtes e receber uma tremenda “muda”, como resposta. É questão até de cultura, creio eu, principalmente entre os jovens atuais. Sentarem-se, sem terem direito, nos bancos para idosos no metrô é outra prática usual. No caso em questão, abordado pelo fiel leitor, ele reclama, especificamente, para o risco a que os que assim procedem estão sujeitos, e  que também, principalmente, provocam aos pedestres.

Se lhe serve de consolo, não é apenas nosso o sentimento de imortalidade do jovem. Ele é mundial, não há educação que resolva.

Quanto aos motoristas, nem se discute: o sentimento de imortalidade é total. Este sentimento é magnificamente exemplificado no notável livro francês, Les choses de la vie, de Paul Guimard, prêmio dos livreiros, na França, em 1968. Nesta obra o autor descreve um acidente mortal, narrado pela vítima, registrando as causas e reações de maneira impressionante e conclui ao final: “Não se preocupe o leitor com o que leu, são os outros que morrem em acidente, você é imortal”.

Por outro lado, em nosso país, a ignorância sobre as leis do trânsito é quase absoluta. Quantos motoristas possuem o Código de Trânsito e, se o possuem, quantos o leram?

Escrevi um código de trânsito, com comentários, contendo charges ilustrativas, copiando o que vira na Inglaterra, com o propósito de tornar fácil e atrativa a sua leitura. Retirei das livrarias, ninguém o comprava.

Quanto ao tráfego de bicicletas que trafegam, por segurança, às vezes, na contramão, assustando-nos, está melhorando com a implantação das ciclovias. Na Holanda não existe este abuso, todos caminham na sua extensa e perfeita rede de ciclovias, que abrange toda o país, inclusive as rodovias. Um dos maiores sustos que levei foi ao ver um almirante, fardado, lá na querida terra das tulipas, calmamente, pedalando a sua bicicleta, indo para o seu trabalho no  Ministério da Marinha.

Talvez aqui se melhorasse este abuso, fazendo como o continente europeu fez, para disciplinar a travessia de pedestres na faixa. O atropelamento fora dela isenta o motorista de qualquer responsabilidade, caso não esteja bêbado ou drogado. Em compensação, o atropelamento na faixa é crime sem direito a fiança.

Aqui, na nossa Pindorama, embora eu duvide que adotem a solução, seria o caso de também inocentar o atropelador, desde que sóbrio, em quaisquer um dos casos citados pelo meu leitor, principalmente para os que praticam skate, em plena via pública ou túneis, como ele se queixa e denuncia, em seu e-mail, que é praticado impunemente, durante a noite, nas vias de Ipanema e do Leblon.

Em vez deste procedimento proposto, resolveram considerar crime culposo o atropelamento de um ciclista bêbado em rodovia pela qual  o motorista vinha a 130 km, num trecho onde a velocidade máxima permitida é de 100 km. E eu pergunto: para efeito letal, qual a diferença de ser atropelado a 100 ou a 130?

Meu caro leitor, enquanto não se encarar, com a seriedade e a rigidez da lei o trânsito, onde está a segunda causa mortis do brasileiro, você continuará preocupado e, pelo tom de seu e-mail,  revoltado. 

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com

Tags: Artigo, Celso, franco, JB, Trânsito

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