Desagradáveis surpresas
Com o título Para a Barra, 7 h de engarrafamento por dia, a edição de O Globo, do dia 11 passado, analisa e critica a situação desesperante em que se encontram os habitantes da Barra, dentre os quais me incluo. As declarações do engenheiro encarregado das Operações de Tráfego da CET-Rio, de que "só haverá solução para este martírio quando houver um transporte coletivo eficaz”, provocaram-me duas desagradáveis surpresas:
A primeira, saber que as operações de tráfego são dirigidas por um engenheiro, e nenhum deles está preparado para exercer esta função, pois que não lhes é ensinada em nenhum curso, e que deveria ser exercida por um oficial superior da Polícia Militar, que é preparado para tal. Quem diz isto não sou eu, apenas repito o que escreveu Sir Alker Tripp, legendário diretor de Trânsito da cidade de Londres, na década de 1936, em seu famoso livro Road traffic control. Quando exerci o cargo de DIRETOR GERAL DO DETRAN GB (botei o título do cargo em maiúsculas de propósito), embora eu aprendera a fazê-las, com uma das maiores polícias de trânsito do mundo, a holandesa, convoquei, para exercer esta função, o oficial de operações do batalhão de trânsito, o Batalhão Tiradentes. Sempre comparecíamos juntos nas centenas de operações que realizamos para acompanhar o ritmo de obras do governo Negrão e da Light. Pouquíssimas vezes tive de interferir, por causa de fatos momentâneos, fortuitos, que interferiam no planejamentos que juntos, Detran e a Polícia Militar havíamos realizado.
A segunda foi a resposta simplista do engenheiro responsável pela fluidez do tráfego, de que “O que não tem remédio remediado está”, contrariando o que sempre dizia, no final da década de 50, o diretor de Trânsito, Geraldo de Menezes Côrtes, o primeiro diretor geral a introduzir a engenharia para resolver os problemas do trânsito, imortalizado no terminal garagem, que leva o seu nome: “Os congestionamentos fortuitos, não tenho como preveni-los ou evitá-los, mas, os permanentes, tenho o dever de solucioná-los”.
O atual problema denunciado pela mídia, segundo o engenheiro afirma, aliás, de maneira correta, que só terá solução quando os usuários de carro preferirão o transporte público eficaz, só irá ocorrer, na melhor das hipóteses, daqui a cinco anos. Neste período, serão emplacados 300 mil carros novos, dos quais o maior percentual será, sem sombra de dúvidas, na Barra.
A causa atual dos engarrafamentos não é o número excessivo de carros, é o número excessivo de carros transportando apenas o seu motorista. A maneira de eliminar este mal, de maneira socialmente justa e, se não sabem, o trânsito, segundo conclusão da ONU, é o terceiro problema social do mundo: dificultar o uso individual do carro (o colesterol ruim) e incentivar o uso do transporte solidário, entre os donos de carros (o colesterol bom), como fizeram as empresas construtoras para a ocupação imobiliária, das áreas nobres, substituindo as habitações monofamiliares, as casas, por multifamiliares, os condomínios, racionalizando, desta forma, a utilização do espaço urbano, mais valorizado, destinado para as construções.
O sistema URV (iniciais de Utilização Racional das Vias), ou o pedágio inteligente, que racionaliza, de maneira socialmente justa, o uso da terra, para a utilização da malha viária, além de criar uma arrecadação capaz de subsidiar o transporte público,diminuindo as elevadas tarifas cobradas, é a solução capaz de reduzir, entre 50 e 80%, o volume de carros de passeio,enquanto se espera o transporte público eficaz. Para implantá-lo só exige, dos políticos que nos governam, coragem política e moral, além de um elevado espírito público, infelizmente qualidades de existência rara, entre eles, no Brasil de hoje.
*Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com
