Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Trânsito

O ovo da serpente

Jornal do BrasilCelso Franco 

Nos anos 40, por causa da guerra, sofremos o racionamento da gasolina, negada aos veículos particulares de passeio, com a consequente sobrecarga no transporte, feito por ônibus e bondes. Surgiu, então, como quebra-galho um transporte, mais barato do que os táxis e mais rápido do que os dois existentes: eram pequenas camionetes, montadas sobre chassis de caminhão, creio eu, transportando cerca de 18 passageiros sentados, e dirigidas por motoristas alucinados que visavam o ganho para seus patrões. Eram chamados de “lotações”, e as pequenas empresas que exploravam este tipo de transporte geraram as atuais empresas de ônibus. Rapidamente, naquela época, tornaram-se maiores riscos à segurança do trânsito do Rio que, diga-se, a bem da verdade, era bem organizado.Com a volta da disponibilidade de gasolina, e a consequente volta da circulação dos carros de passeio, as "lotações" foram perdendo a freguesia e, como disse, viraram empresas de ônibus. Chegaram a ser mais de cem.

Na década de 60, na minha gestão no Detran, ensaiaram o que se chamou de “transporte clandestino”, utilizando Kombis VW, exploradas por policiais civis e militares. Não se constituíam em risco para segurança mas prejudicavam os taxistas e, como tal, tiveram que ser combatidas. A punição, quando apreendidas, era o seu desemplacamento e recolhimento ao depósito, confiscadas com a suspensão de CNH do motorista.

Após minha saída, não sei dizer o que houve. Desinteressei-me em saber, não tinha mais nada com isso. Recentemente, começaram a surgir, sem que o poder público regulamentasse sua atividade, fazendo com que se integrassem às empresas de ônibus, como suas alimentadoras e nunca como concorrentes, camionetes médias e modernas.

Não sei quem iniciou a sua exploração, se ainda  policiais, mas o negócio prosperou, fruto da deficiente oferta de transporte por ônibus. São conhecidas com o sofisticado nome de “vans”. Graças à omissão do poder público, que não regulamentou os seus pontos de parada, específicos, só para elas, passaram a se comportar, no trânsito, como táxis.Como são muito maiores, tornaram-se um perigo para a segurança viária do trânsito atual, bem pior, do que o que existia na época das antigas “lotações”. Já estão transportando passageiros em pé, e as que têm um auxiliar, este se projeta para fora da porta sinalizando para o público o destino do veículo. Um comportamento digno dos países mais atrasados do mundo no setor de transporte. Segundo o noticiário da mídia, começam essas vans a provocar acidentes graves, como as suas precursoras, na década de 40 e 50.

Até quando as autoridades responsáveis por esta calamidade, verdadeiro ovo da serpente, o deixarão crescer, até se tornar numa venenosa sucuri? Na semana que passou uma van bateu num poste, em alta velocidade, deixando dez feridos. Penso que organizar ou extinguir este tipo de transporte se tornou uma questão de brio profissional, para  quem tem o dever  de zelar pelo trânsito da cidade, antes que as vans se tornem  uma sucuri e, como tal, indomáveis.

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