Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Trânsito

Vantagens da velhice e do dever cumprido

Jornal do BrasilCelso Franco

        Aproveitando o “recesso branco”, que sempre começa na semana que se segue ao Natal e termina no Ano-Novo, resolvi renovar minha Carteira Nacional de Habilitação. Creio eu, pela última vez, pois que, se estiver vivo quando esta nova CNH terminar a sua validade, o bom-senso me aconselha a não mais dirigir com 89 anos. Escolhi a chuvosa manhã da terça feira que passou e saí da Barra cerca das 8 horas, enfrentando, como esperava, um trânsito tranquilo e um tráfego desimpedido.

        Tomei o caminho da orla marítima por ser bem mais aprazível. O fato notável é que, ao atingir a orla do Leblon, Ipanema e Copacabana, mantendo a velocidade máxima permitida, encontrei todos os semáforos abertos, num incentivo a exceder o limite da velocidade permitida, a fim de não deixar de pegá-los abertos. É este, aliás, o pecado capital da dita coordenação da nossa sinalização semafórica, quando deveria abrir em sequência, na velocidade programada, para tirar o melhor rendimento da capacidade da via.

        Quem for a Buenos Aires verá que lá é exatamente como lhes digo: a coordenação que deveríamos ter aqui, que nos foi ensinada, em 1969, a mim e a um grupo de engenheiros argentinos do Detran de Buenos Aires, quando estagiavam na Siemens, em München. A eles foram dados os recursos, quando de volta à pátria, a mim não. Por causa desta coordenação educativa, o nível de acidentes lá é bem mais baixo que o nosso.

        Em chegando ao centro do Rio, estacionei, como de hábito, na garagem da Cinelândia e, por ser idoso, peguei o metrô, gratuitamente, até a estação Uruguaiana. Entrei no acesso 5 do prédio do Detran, onde são atendidos, de maneira perfeita, os idosos. Preenchi o formulário, fui entrevistado no guichê próprio e de lá fui, para o do lado extremo direito, tirar a minha foto e as minhas digitais. Tudo perfeito, graças ao reduzido número de público. Só o ruído do falatório do reduzido público presente perturbava a paz. Imaginem quando estiver o local lotado. Sugiro que a diretora de Habilitação coloque lá o aviso, bem visível, a exemplo do que fez a Polícia Federal, nos locais de retirada de passaporte: “Roga-se silêncio”. Tal medida irá beneficiar muito mais os funcionários que lá permanecem por horas do que o público usuário, que lá permanece pouco tempo.

        Após esta rotina subi, com a minha ficha, ao quarto andar para, de novo, me cadastrar para o exame médico.

Esperei sentado não mais do que uns dez minutos e fui chamado para o exame de pressão arterial. Beleza: 12 por 8. Viva o doutor Roberto Zani, que cuida de minha saúde, por mais de trinta anos. E depois do exame voltei a me sentar esperando a minha chamada para o exame de vista. Aí aconteceu o que eu temia. Apareceu um funcionário, do meu tempo, e me reconheceu. Recriminou-me por não ter solicitado prioridade e me fez entrar, conduzindo-me ao médico examinador da acuidade visual, também velho amigo do meu tempo. Feito o exame no aparelho que eu comprei, ainda na minha primeira gestão, fui aprovado com louvor, graças a ter operado catarata nas duas vistas, há já dois anos. Para encerrar, quando peguei o metrô de volta, um jovem me ofereceu o lugar dele, para que eu me sentasse. Assim terminou minha vilejatura até o meu velho e querido Detran.

        Eu acabara de ter ao vivo o resultado do que sempre nos ensinava o insigne governador Francisco Negrão de Lima, em cujo governo tive o privilégio de trabalhar: “O importante na vida pública não é ser, é ter sido. Proceda de maneira que, ao deixá-la, mereça sempre o respeito e, se possível, a gratidão”.

Celso Franco, oficial de Marinha reformado(comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio.- acfranco@globo.com

Tags: Artigo, celso franco, cnh, detran, habilitação, renovação

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