Omelete e o trânsito
Admirador deste famoso prato francês, principalmente do baveuse, e sempre preferindo o aux fines herbes, reconheço que, embora sempre bem elaborado na França, é difícil encontrar-se, no Brasil, quem o faça bem feito.
Pois bem, no momento a prefeitura do Rio inicia uma obra faraônica, sobre a qual não vou comentar, para revitalizar a área do cais, e começaram substituindo a separação do tráfego de passagem, em plano elevado, pelo subterrâneo que, em dias de muita chuva, poderá tornar-se submerso. Estão demolindo a parte do Elevado Presidente Juscelino, que fora construído no governo Faria Lima..
Cabe-me apenas comentar o tema desta coluna, o trânsito, e não criticar, atitude que está ao alcance de qualquer neófito no assunto Iniciei a coluna citando a omelete, porque o nosso prefeito está justificando os enormes transtornos causados por esta obra, comparando-a à preparação de uma omelete, que exige, para fazê-lo, que se quebrem os ovos. Até aí, tudo bem, mas os ovos devem ser quebrados dentro do recipiente onde se fará a omelete, não tumultuando o ambiente onde a estamos preparando.
As intervenções urbanas, com o propósito de criar novos espaços para o escoamento do tráfego, obedecem a normas técnicas, muito bem explicadas e exemplificadas no livro clássico Traffic in towns ou, se preferirem Buchanan’s Report. Lá está, muito bem detalhada, a importância das “linhas de desejo”, ou seja, os trajetos preferenciais dos diversos destinos dos fluxos de tráfego, para se planejar as obras viárias. Foi assim pesquisando-se, e eu fazia parte do governo naquela ocasião, que se criou o escape do fluxo de tráfego, agora fechado, destinado ao centro da cidade, atraído pela facilidade de escoamento do elevado construído para contornar o centro, e que não desejava contorná-lo. Este tráfego, destinado ao centro, que circulava pelo elevado, passou a fluir, digo, se engarrafar, no “nó górdio” criado no encontro de todas as correntes de tráfego, para os seus diversos destinos, na área onde se localiza a estação rodoviária, por si só uma enorme geradora de tráfego.
Eu não havia “sentido na pele”, ainda, este transtorno. Na segunda-feira que passou, ao regressar de Niterói, por volta das onze horas, fui surpreendido pelo nó ao tentar — ciente pelo que li sobre o que estava ocorrendo ao longo do elevado — tomar a saída para a Tijuca, pois me dirigia à Barra. Enquanto sofria no congestionamento resultante de estar eu misturado com os que desejavam seguir para a Avenida Rodrigues Alves e a rodoviária, observei que a pista ao meu lado direito, com o tráfego oriundo da Avenida Brasil, estava praticamente deserta. Sem demonstrar surpresa pela não utilização desta pista para separar os que vão para a Tijuca dos que vão para o Avenida Rodrigues Alves, face á inexperiência da CET-Rio, me dei conta da solução para aliviar o que ocorre com as duas correntes de tráfego citadas.
Essa solução, deixo-a aqui, como colaboração gratuita, para liberar, principalmente, o fluxo dos veículos de socorro. Bastará, e deveria ter sido feito antes de a obra começar, abrir um escape, tipo agulha, para a pista lateral, a fim de retirar o tráfego que se destina à Tijuca, deixando livre o que se destina ao centro, aliviando de muito aquele congestionamento crônico. Esta corrente desviada, destinada à Tijuca, deverá ser guiada por placas orientadoras, após entrar na Francisco Bicalho, para pegar a Avenida Pedro II e contornar a Quinta da Boa Vista com destino à Avenida Maracanã. Para facilitar o escoamento no trecho inicial da Avenida Francisco Bicalho, remover as paradas de ônibus para depois da entrada da Avenida Pedro II.
Quanto ao outro imbróglio, se observarem a área, do alto, de helicóptero, sem dúvida irão saltar aos olhos vias, como se “veias safenas” fossem, para suprir a “artéria” entupida. Como conselho final: sempre procurando separar as “linhas de desejo”, como recomendava o mestre Buchanan em 1963, há mais de quarenta anos, portanto, antes da alfabetização da maioria dos técnicos responsáveis pela atual, desgastante politicamente, confecção da “omelete”, como disse no início deste artigo, prato de difícil preparação no Brasil.
