Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Sol maior

Conversando com o violoncelista Bernardo Katz

Maria Luiza Nobre

O violoncelista carioca Bernardo Katz é conhecido por fazer recitais especialmente com integrais, como as Sonatas para Violoncelo e Piano de Brahms e Beethoven, da mesma forma que já fez a proeza de fazer um recital executando no mesmo a integral das Suítes de J.S.Bach para Violoncelo Solo. Vamos saber um pouco mais sobre sua carreira e vida pelo mundo.

Você é considerado um dos expressivos violoncelistas da sua geração, que aliás é a mesma de Antônio Meneses. Como você vê o ensino de seu instrumento atualmente no Brasil?

Bernardo Katz: Vejo de maneira muito positiva. Considero que tudo começou com meu ex-professor Iberê Gomes Grosso, que continuou a escola francesa de Alexanian e Casals, com quem tive o privilegio de começar e estudar por muitos anos e que sempre me incluía no seu dia a dia, e possibilitando o convívio com grandes artistas brasileiros como Oscar Borgeth cuja esposa, Dna. Alda era irmã do Professor Iberê e várias vezes me recebeu em sua casa para ter aulas na residência destes com o Professor Iberê que lá estava em ensaios, assim como com Arnaldo Estrella e sua esposa Mariuccia Iacovino, entre outras muitas estórias. Pude presenciar os ensaios do Quarteto Guanabara, formado por eles na Rua Rui Barbosa, residência de Arnaldo Estrella e Mariuccia, onde o professor Iberê me dava aula após os ensaios. Posteriormente, convivi com o professor Iberê  e sua esposa dona Linda e filhas, como pessoas maravilhosas que foram, deixando muitas saudades.

Ter como mestres exímios violoncelistas é um fato cada vez mais raro – Antonio Janigro, Janos Starker,Aldo Parisot e o célebre André Navarra fazem parte da sua lista de mestres. Sabendo que todos são muito temperamentais, como foi sua experiência de trabalhar com a nata do violoncelo?

BK: Considero esta experiência como tendo sido um privilégio. Tortelier me deu aulas durante seus ensaios e concertos, morei meses com Boris Pergamenschikov e posteriormente terminei o mestrado com Heinrich Schiff. Convivi na casa destes diariamente durante anos, fazendo música de câmera e concertos com Antônio Janigro, Norbert Brainin (Amadeus Quartett), Bernhard Greenhouse e Leonard Rose. Passei muitas vezes às margens do Salzsach em Salzburg com Antônio Janigro e junto ao Rhein com o Brainin em Colônia.

Há muitas estórias, uma vez o Navarra marcou comigo para encontrá-lo em sua casa em Paris, pois ia tocar o duplo de Brahms e queria que fosse com a música dele, com as anotações e dedilhados dele. Chegando no apartamento dele, me deu de presente um disco da gravação dele de peças de Chopin e na dedicatória ele escreveu: A mon petit élève Bernardo quis est toujour de accord avec moi. Então, ele disse que se orgulhava que ao final eu acabava usando minhas próprias arcadas e dedilhados, pois ele silenciosamente admirava quem tinha personalidade e que era capaz de convencer com sua própria interpretação – na verdade uma das qualidades essenciais do artista, valorizar seus próprios sentimentos e emoções. Após eu tocar de cor, como sempre fiz tudo, ele disse que eu estava maravilhosamente bem preparado, mas que seria sortudo se entendesse esta peça aos 35 anos. Eu demorei a entender o que ele quis dizer, mas que realmente, como disse Edgar Allan Poe, para se ser feliz em um ponto há de se sofrer até aquele ponto.

Outro feito foi quando estava em Paris com o Luthier Etienne Vatelot e, reconhecendo a minha voz (e provavelmente meu sotaque em francês), Greenhouse me deu um grande abraço e resolveu pegar carona em meu carro até Frankfurt. Durante a noite eu estava dirigindo na Autobahn e do nada um bando de cervos apareceu pulando na nossa frente. Consegui desviar, ele acordou e disse: good one!

Todos estes grandes artistas tinham grandes egos, grandes temperamentos, faz parte. Sem você querer a atenção e o carinho do público, e sobretudo mexer e arrebatar com coração de todos, ninguém sobe ao pódio. Tem de querer comunicar e interagir. Sempre consegui manter o foco no que eu sentia, procuro ver o que está correto e não quem estava certo. Tinha de convencer e argumentar o por quê. Uma vez, tive antes de um recital importante uma diferença com o Pergamenschikov, que não concordava com um retardando que eu fazia e ainda faço logo após o inicio do último movimento da Sonata número 3 em lá maior de Beethoven. Tive de comprovar a razão do porquê de sentir a passagem daquela maneira provando dentro da linguagem sonora, isto é, pelo momento de transição do movimento lento, pela tonalidade, pelo registro usado e os intervalos. Após isso, convencido, pagou meu almoço!

Este temperamento de todos era o diferencial: se grandeza fosse o normal, o normal seria a grandeza!  Uma vez estava já dormindo em Phoenix, no Arizona, e recebi às 22 horas um telefonema. A voz era firme e disse: “Mr. Katz... Isaac Stern!” Eu quase caí da cama. Ele estava em Phoenix, onde daria um recital, e estava me convidando de tomar café com ele pela manhã por recomendação de Norbert Brainin. No dia seguinte, passei a manhã toda e almoço com ele, tocando, escutando e sentindo a benção de estar com uma pessoa que tinha como ídolo, um verdadeiro poeta no violino.

Projetos importantes como recitais com as íntegras das Sonata para violoncelo e piano de Brahms e Beethoven são uma realidade em sua carreira. Quais são seus plano para um futuro bem próximo?

BK: Meu Professor Iberê, enquanto vivo, havia me pedido fazer como algo inédito no Brasil: tocar todas as seis suítes para violoncelo solo de J. S. Bach num só dia. Durante a primeira vez que fiz isso, o grande amigo professor Sandrino Santoro se levantou entusiasmado e disse que somente o Tortelier havia feito isto no Brasil há anos atrás e em dois dias. Me senti altamente aliviado e recompensado de ter honrado o pedido e desejo do Professor Iberê.

Agora acabei de gravar as mesmas seis Suítes de Bach em CDs, o que havia sido uma sugestão de Samuel Mayes e Lorne Monroe – primeiros celistas das orquestras de Nova York e Boston. No Brasil ninguém havia feito isto (o grande Antônio Meneses gravou na Alemanha as mesmas seis Suítes), um trabalho maravilhoso e que devo muito ao meus amigos Simone e Sérgio, donos do Studio Araras em Petrópolis.  Já recebi comentários efusivos de Heinrich Schiff e de amigos meus que hoje são da Filarmônica de Berlin, Nova York e Frankfurt. Outro dia, tive de aliviar a minha consciência, pois meu pai sempre havia dito que antes de morrer – ele hoje está com 80 anos, mas pedido de pai ou mãe é como um grilo falante na consciência – queria tanto me escutar solando o Concerto de Haydn em ré maior. Como nunca havia tocado o mesmo no Rio de Janeiro, acabei tocando este, assim como as Variações Rococó de Tchaikovsky e o Kol Nidrei na mesma noite em que o Maestro Henrique Morelenbaum regeu no Oi Casa Grande.

Um fato curioso e que após eu tocar o Haydn, a minha amiga Maitê Proença veio de surpresa cumprimentar a mim e a minha esposa. Depois ela me deu uma dura, perguntando quem era aquela mulher linda. Disse a meu irmão, que tinha vindo da Alemanha me visitar, que a Maitê estava deixando ela nervosa. Meu irmão respondeu: “a mim também”!

Espero em breve gravar as Sonatas de Brahms e Beethoven para Piano e Violoncelo com o Duo Colker-Katz, além do duplo de Brahms que deverei fazer com o Joshua Bell se conseguir coordenar os detalhes.

Tags: aldo parisot, andré navarra, antonio janigro, beethoven, bernardo katz, brahms, janos starker, joshua bell

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