Jornal do Brasil

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Sol maior

Esplendor sonoro

Crítica do concerto da Orquestra Sinfônica Simon Bolívar com Dudamel, de 10 de julho

Maria Luiza Nobre

A espera da platéia que  lotou o Theatro Muncipal na noite de ontem,tinha já aquele clima de eletricidade que anunciava um evento excepcional. No palco entraram em seguida, um a um, os músicos dos diferentes naipes de uma imensa orquestra que ocupava todos os espaços. Sentia-se uma expectativa de que algo deslumbrante aconteceria. A colocação dos naipes já contrastava com o usual nas orquestras,com os contrabaixos à esquerda do palco, as duas harpas à direita, os violoncelos no centro, as violas e segundos violinos à direita. A imensa massa de instrumentistas, triplicando praticamente as estantes de cordas, e duplicando a de madeiras, metais, harpas e percussão, podia fazer pensar em uma sonoridade maciça, típica de orquestras maiores do que o normal. A entrada do maestro Dudamel, concentrado e sério erguendo  lentamente a batuta no início do “Andante” colocou de imediato a tônica desta noite: simplesmente uma das mais impressionantes versões desta monumental Sinfonia nº9, a última deixada completa por Gustav Mahler.

A claridade tímbrica da Orquestra Sinfônica Simon Bolívar é exemplar: em nenhum momento, mesmo nos “tutti” mais impressionantes a textura orquestral se diluía em uma sonoridade maciça. Ao contrario: miraculosamente os timbres dos metais equilibravam-se perfeitamente e em dosagem rara com as cordas, madeiras e percussão. O timpanista tal como seus colegas, executava as suas intervenções com o cuidado e a dose de um perfeito camerista. Jamais ouvia-se aqueles exageros sonoros dos metais e da percussão, tão comuns mesmo em orquestras tarimbadas e bem dirigidas. 

Maestro Marlos Nobre, Maestro Gustavo Dudamel e Maria Luiza Nobre
Maestro Marlos Nobre, Maestro Gustavo Dudamel e Maria Luiza Nobre

Nessa noite o segundo e delicioso movimento da 9ª Sinfonia de Mahler, soou exatamente com o caráter, a dinâmica ideal, a sonoridade puríssima e o equilíbrio orquestral mais dosado,calculado  pelo compositor em sua escritura tão minuciosa. Foi um puro deleite sonoro este movimento, expressado com a naturalidade da grande interpretação, isto é, aquela que realiza em um plano ideal o pensamento do compositor. Os temas ternos do “ländler” idealizados na partitura por Mahler adquiriam naquele momento, pelas mãos da batuta seguríssima e profundamente musical de Dudamel e a musicalidade de seus músicos, o ápice de uma representação sonora ideal.

Mesmo o caráter rude e ao mesmo tempo burlesco, desejado na partitura pelo compositor no terceiro movimento “Rondo-Burleske”, não mais adquiriam aquela brutalidade sonora tão comum até mesmo em orquestras de renome, que tentaram assim traduzir a intenção de Mahler. 

Gustavo Dudamel possui aquela chispa divina da intuição musical, que une o perfeito aparato técnico de uma batuta clara e impecável, com a intuição musical que é, sem dúvida alguma, um dom natural, ou seja, uma aptidão genial para simplesmente dirigir uma orquestra no mais alto nível possível.

Foi no último movimento “Adágio”, um sublime adeus de Mahler às suas próprias desventuras neste mundo terreno, que o célebre Gustavo Dudamel e a Orquestra Sinfônica Simon Bolívar atingiram um ápice de realização instrumental e sonora impecável, com uma concepção diríamos ideal deste sublime movimento.

Nele Mahler parece simplesmente cantar a própria Humanidade em um canto ao mesmo tempo doloroso e confiante. É como se, através deste canto contínuo de uma pureza imensa, o compositor atingisse os degraus mais elevados da sublime representação desse destino.

As cordas que assumem no movimento final uma função de protagonista, tiveram na Orquestra Sinfônica Simon Bolívar o seu momento culminante de perfeição sonora,técnica e interpretativa. Dudamel, com sua sensibilidade artística apuradíssima e seu controle absolutamente impressionante do som orquestral, moldou nessa noite uma concepção que superou tudo o que realizara nos movimentos anteriores.

O canto doloroso e ao mesmo tempo confiante parecia brotar das entranhas de cada um dos músicos a partir da batuta eletrizante de Dudamel, culminando em um dos momentos mais impressionantes vividos pela colunista em uma sala de concerto,em muitas partes do mundo.Era evidente que a platéia inteira prendia a respiração,totalmente submetida ao momento excepcional da mais elevada música realizada ali,naquela noite. Era como se um grande sopro criador tivesse passado e pouco a pouco extinguia-se até o grande silencio final. 

Bravo, bravíssimo da coluna a Dudamel e a Orquestra Simon Bolívar.

Tags: Artigo, coluna, maior, sol, texto

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.