Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Sol maior

A música clássica encanta Nelson Tanure

Maria Luiza Nobre

O empresário Nelson Tanure, que foi vice-presidente da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, deixa claro em seu expressivo texto publicado no Jornal do Brasil de ontem, o seu definitivo e inquestionável amor pela música clássica. 

Realmente a música é uma linguagem universal,isto é, todos os povos podem ouvir e entender os sons da magia de uma Sinfonia de Mozart ou de Beethoven,os pré-clássicos e seriamente chamados de barroco como Bach, Haendel, os apaixonantes românticos como Brahms e Schumann, por  exemplo, até chegar aos nossos dias com o melhor da música contemporânea, porque a música é universal. 

Mas o período clássico é uma verdadeira pérola, uma época sublime de encantamento e obras maravilhosas, que é finamente traduzido na ótica do nosso Tanure como um sentimento onde “é possível arrumar a casa, cuidar dos filhos e, sobretudo, desenvolver as mais nobres das atividades: pensar, meditar e contemplar”. Deixando a imaginaçãoaflorar e fluir, entendoperfeitamenteo pensamento do empresário que é encantado pelo grande período da história da música,e realmente uma vez se apaixonando é para sempre, felicidade pura, uma realização plena, diria que é um sentimento de prazer tanto mental quanto físico.

O ângulo de ação da música é tão grande, tão contrastante, tão envolvente na sua expressividade e sensação de vários modos de prazer,que acertou mais uma vez o empresário quando exprime que “Aprecio a generosidade da música. Ela se dá ao pobre, ao rico, ao culto ou ao iletrado. É universalmente acessível. Só é necessária alguma sensibilidade, e se abriráum mundo maravilhoso que muitos jamais pensaram existir, dentroe fora de si mesmos”. Mais uma vez citamos Tanure quando expressa que  “Os clássicos nos ensinam: é um lindo aprendizado, desde os instrumentos que compõem uma orquestra, os compositores, suas vidas, suas obras, as épocas, os locais e as circunstâncias que viveram. Sem falar dos maestros, dos músicos e dos cantores. Que homens! Que gênios!” Realmente o lirismo do período é atraente, pode ser sentido de várias maneiras desde as mais doces até as mais enloquecedoras, tudo depende de como se ouve, quando se ouve e com quem se ouve.

O sentimento puro de alguns Concertos de Mozart para piano,por exemplo, doçura pura em sua maioria, podem ter também o seu grande contraste em Dom Giovanni, drama puro, do mesmo Mozart, assim como outros tantos compositores trabalhavam com elementos mágicos e contrastantes. Mas os ouvidos são uma verdadeira surpresa, muitas vezes não esperada, porque uma melodia para uns pode ser excitante, para outros arrepiante e para outros também entediante. A teoria dos sentidos é infinita e uma incógnita. Entendo também quando diz “resta-nos um consolo: os compositores do passado fizeram um imenso repertório”. O períodoera altamentepropício, sobretudo porque os compositores eram na sua maioria, “funcionários” da corte, e nem imaginavam o que viria ser o direito autoral em épocas mais tardias. Digo isso porque Mozart seria um dos homens mais ricos do planeta. 

Fico muito sensibilizada quando vejo um empresário como Nelson Tanure escrever emocionado sobre a música que o encanta, o que aplaudo com a maior da minha paixão, porque é muito raro hoje em dia ter a razão, o cerebralismo versus o melhor da intuição, e nisso Tanure é um mestre. 

Abaixo,o texto do empresário Nelson Tanure. 

Após tantos anos ouvindo, apreciando e lendo sobre música, cheguei à conclusão de que a música clássica é a suprema arte do gênero humano. 

Diferentemente das outras artes, como literatura, pintura, escultura, e independentemente de qualquer época, estilo ou escola, ela pode ser apreciada, admirada, curtida o tempo todo. Ao contrário de outros gêneros musicais, a suavidade dos clássicos permite a leitura, o trabalho, o passeio. Na companhia de tão maravilhoso som, é possível arrumar a casa, cuidar dos filhos e, sobretudo, desenvolver as mais nobres das atividades: pensar, meditar e contemplar. É muito difícil, ou quase impossível, fazer tantas atividades sob os acordes de um samba, de um jazz ou de um rock. A música clássica é o caminho mais curto para o firmamento. 

O genial Mario Henrique Simonsen (1935-1997) disse que a tecnologia permite ao ouvinte, mesmo àquele não necessariamente versado em leitura musical da ópera ou apenas da música erudita, ter a perfeita compreensão da obra. 

“O perigo, aí, é se apaixonar e querer ouvi-la todo dia, ou quase. A paixão pela música, de fato, cria uma forma de dependência psicológica. Só que essa dependência leva à felicidade, e não à autodestruição.” Como de hábito, sábias palavras de Simonsen. 

Aprecio a generosidade da música. Ela se dá ao pobre, ao rico, ao culto ou ao iletrado. É universalmente acessível. Só é necessária alguma sensibilidade, e se abrirá um mundo maravilhoso que muitos jamais pensaram existir, dentro e fora de si mesmos. 

Como explicou Simonsen, não é necessário ser um conhecedor ou um especialista em iniciação à música. Bastam a delicadeza e a capacidade de se apreciar tons suaves e melódicos. 

As mais elementares músicas clássicas vão brincar com seu coração. Mozart dizia a respeito de Haydn: “Ele sozinho tem o segredo de me fazer sorrir e tocar no fundo a minha alma”. 

Os clássicos nos ensinam: é um lindo aprendizado, desde os instrumentos que compõem uma orquestra, os compositores, suas vidas, suas obras, as épocas, os locais e as circunstâncias que viveram. Sem falar dos maestros, dos músicos e dos cantores. Que homens! Que gênios! 

Após se acostumar com a sonoridade, com a melodia, com a harmonia dos instrumentos, surge algo de uma beleza extraordinária. A voz humana. Seja ela masculina, seja ela feminina, alta ou baixa, grave ou aguda, superará qualquer instrumento musical. É fato que existe uma presença masculina maior entre os compositores, músicos e maestros, embora na voz as mulheres sejam insuperáveis. 

Sabemos que a produção dos clássicos é finita, assim como o foi a escola holandesa de pintura clássica. Os tempos são outros, e há espaço para a convivência, não de dezenas, mas de centenas de gêneros musicais diferentes, alguns de gosto duvidoso. Por isso, afirmo que não se faz, nem se fará, mais música clássica; mas é compreensível diante dos novos tempos, da velocidade da vida e dos valores atuais. Ainda que não consigamos a produção de um século XVII ou XVIII ou XIX, resta-nos um consolo: os compositores do passado fizeram um imenso repertório. 

Temos um enorme acervo de clássicos para serem ouvidos por toda a vida. Vale a pena ficar dependente, como propôs Simonsen, de uma arte que leva à felicidade suprema. 

*Nelson Tanure, empresário, foi vice-presidente da Fundação Orquestra Sinfônica do Brasil (OSB).

                                                                          ***

Dica da Semana - Concerto de Mozart 

Tags: coluna, maior, nobre, sol, texto

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