Jornal do Brasil

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

Sol maior

Conversando com o maestro Marcelo Lehninger

Maria Luiza Nobre

A nossa conversa de hoje é com o Maestro Marcelo Lehninger,carioca da gema,que está conquistando as platéias internacionais. Em três semanas esteve em três continentes,encantando todos com o seu talento e sua técnica que é fruto de altos estudos além de sua perseverança invejável. O artista é acostumado a estar nos palcos desde feto,pois sua mãe,a pianista brasileira Sonia Goulart deu vários concertos grávida com Marcelo ainda na sua barriga,da mesma forma que sempre estava com seu pai,o violinista alemão Erich Lehninger nos palcos assistindo os ensaios da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo,antes da reestruturação do conjunto. Lehninger está no Rio de Janeiro,convidado da Orquestra Sinfônica Brasileira para  reger o concerto dia 31 de maio às 21h30,em horário especial,no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e como sempre sua estada na cidade que nasceu, é muito festejada e atrai inúmeros amigos para apreciarem o seu crescente sucesso. Sua habilidade e sua diplomacia são seu sucesso,uma vez que cada orquestra tem um perfil próprio,uma forma gestão diferenciada,e para saber mais,vamos conversar com o regente. 

Maestro, você é sem dúvida o maior talento da nova geração de regentes brasileiros. Com que professor você estudou e conseguiu o grande segredo da técnica de reger, e muito bem? 

Tive professores maravilhosos, que contribuíram com a formação musical e técnica que eu tenho hoje.  No Brasil tive a oportunidade de conhecer e assistir aos ensaios do Maestro Eleazar de Carvalho, quando meu pai,violinista Erich Lehninger, era o spalla da OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). 

Foi nesse momento que a minha fascinação pela arte da regência começou. O próprio Eleazar indicou que eu procurasse o Maestro Roberto Tibiriçá, que estava inclusive indo para o Rio. Foram anos de trabalho com o Tibiriçá, até a minha partida para os EUA, onde estudei com Harold Farberman, professor e fundador do Conductors Institute at Bard College, onde cursei o Mestrado. 

Nos EUA pude, também, estudar com o Leonard Slatkin, no Conducting Instituteda Orquestra Sinfônica Nacional de Washington, DC. Esse programa foi muito bom, pois não somente tive a oportunidade de começar a trabalhar com uma grande orquestra americana, mas também recebi intenso treinamento sobre todo o funcionamento administrativo e político das orquestras americanas.

Depois tive a oportunidade de estudar com o Kurt Masur, que me agraciou com uma bolsa de estudos para estudar com ele na Europa, e viajar com como seu regente assistente em todas as orquestras que ele estava regendo. Foi uma experiência única! Me lembro, por exemplo, em Viena; ele conseguiu que eu visitasse o cofre do arquivo do Gesellschaft der Musikfreunde onde eu estudei religiosamente os manuscritos de Beethoven e Mahler e pesquisei sobre a problemática dos andamentos na música de Beethoven. Pude ver o metrônomo de Beethoven e tive acesso aos documentos da época, onde diziam o tempo de duração de cada obra na época de sua estreia.  Foram muitas descobertas...

Mais tarde, já em Boston, enquanto assistente do Maestro James Levine, pude conviver de perto com ele e receber ensinamentos que jamais irei esquecer. Creio que absorvi um pouco de cada mestre: o carisma e personalidade do Eleazar; o talento, espontaneidade e intuição do Tibiriçá; a técnica do Farberman; a praticidade e efetividade (sobretudo nos ensaios) do Slatkin; o lado filosófico do Masur e a musicalidade brilhante, senso único de sonoridade e grande conhecimento de repertorio do Levine. 

Em menos de um mês você esteve regendo a Orquestra Sinfônica de New West em Los Angeles, participou da turnê da Orquestra Sinfônica de Boston na China e Japão, na semana passada você regeu a Orquestra Sinfônica Alemã na Filarmônica de Berlim e esta semana rege a Orquestra Sinfônica Brasileira no Rio de Janeiro. Os quatro conjuntos são quatro mundos completamente diferentes, com o qual você tem mais afinidade? 

Seria difícil apontar a orquestra com a qual tenho mais afinidade, pois exerço trabalhos diferentes em cada grupo.  Na Orquestra Sinfônica de New West sou o diretor musical e regente titular.

Além de reger ensaios e concertos, tenho diversas atividades administrativas e políticas. No início deste mês, regi o encerramento da temporada oficial (que nos EUA é de setembro à maio) e tive como solista a minha mãe, a pianista Sônia Goulart.  Foi um concerto emocionante! 

Em Boston, sou Regente Associado. Fico a cargo dos ensaios (principalmente os ensaios acústicos em diferentes teatros da turnê), além dos meus próprios concertos com a orquestra em Boston e em Tanglewood.  Nesta temporada que inicia-se em setembro próximo, terei a honra de abrir a temporada oficial, regendo Mozart, Villa-Lobos e Beethoven. Minha relação com a Orquestra Sinfônica de Boston já tem 4 anos. Me sinto muito confortável com o grupo; é como se fosse uma grande família. Em Berlim, regi como convidado na maravilhosa sala da Filarmônica.  Já é a segunda vez que eu rejo lá e adoro fazer música com orquestras alemãs de grande qualidade, assim como adoro o publico alemão.  A dinâmica de ensaios é completamente diferente das orquestras americanas.  O processo é mais longo e intenso, mas o resultado é muito gratificante.  A bem verdade é que acabo fazendo um intercâmbio cultural entre orquestras. Levo um pouco de Boston para Europa ou América do Sul; levo um pouco da Europa para os EUA, etc....  O enriquecimento artístico que adquiro com cada conjunto, me permite criar uma concepção “macro”, onde acabo aplicando em cada orquestra que eu visito ou rejo constantemente.   Isso evidentemente, respeitando as características e individualidades de cada grupo e cada sala de concertos (que é um dos instrumentos de uma orquestra). Por exemplo, regi, recentemente, a Orquestra Sinfônica de Chicago.  

Ficou claro que os músicos tocam de uma forma determinada, devido às características acústicas da sala. 

O regente deve entender e respeitar as tradições de cada grupo e eu aprendendo muito com todas essas experiências maravilhosas que estou tendo. 

Já a Orquestra Sinfônica Brasileira, além de ser business as usual, onde eu venho como regente convidado por uma semana, pela terceira vez, tenho um lado emocional todo especial em reger na minha cidade (onde nasci e fui criado).  A OSB tem um lugar muito importante no meu coração, pois foi a orquestra que eu cresci ouvindo (juntamente com a OSESP).

Eu cresci dentro dessas orquestras, vi meus pais trabalharem com ambas orquestras diversas vezes, vibrei e/ou sofri com os diferentes períodos que as orquestras passaram e tenho sempre grande prazer de vir trabalhar no meu país.  Fico mais emocionado de reger no Theatro Municipal do Rio do que no Carnegie Hall de Nova York ou na Filarmônica de Berlim!! Tem aquele sabor especial de estar em casa; afinal, o bom filho a casa torna!

Seu sucesso com a Orquestra Sinfônica de Boston é uma realidade, além da Orquestra Sinfônica de New West, em Los Angeles, onde você é o diretor musical e regente titular. Uma vez que cada conjunto tem uma gestão diferenciada, de acordo com suas necessidades e suas conveniências, o que seria um modelo de orquestra ideal onde todos sairiam ganhando, isto é, músicos, maestro, gestores e principalmente o público?

 O modelo de gestão de cada orquestra depende de muitos fatores, além de ser, também cultural e regional.

Nos EUA, as orquestras (quase em sua maioria) sobrevivem de doações. A filantropia é uma prática muito comum nos EUA e faz parte da cultura daquele país.  Já na Europa, existem grandes orquestras que têm quase a totalidade de seus orçamentos anuais providos pelo governo.    

No Brasil, assim como em outros países em desenvolvimento,  estou convencido que a solução é a fusão da iniciativa privada com o apoio governamental. 

No entanto, acho que existe um perigo quando a música clássica (em especial uma orquestra) é tratada apenas como uma instituição cultural de entretenimento.  Creio que o papel de uma orquestra profissional mudou ao longo dos séculos e décadas e hoje em dia exerce, também, um grande papel na educação.

Em todo o mundo, as grandes orquestras estão promovendo concertos didáticos para crianças (formação da plateia do futuro), levando a música clássica em áreas distantes dos centros culturais, levando a música clássica para as escolas e universidades, realizando concursos para jovens profissionais e participando ativamente (direta ou indiretamente) de projetos sociais, sobretudo os de inclusão social através da música. Por isso acredito que a lei cultural de incentivo fiscal não deveria ser a mesma ferramenta usada para captação de recursos, digamos de um show de música popular baiana na praia (nada contra!) e de um orçamento anual de uma orquestra profissional, por exemplo.  Fica difícil competir com uma banda que vende milhões em ingressos, com o público de música clássica – quando a fonte de patrocínios e a lei de incentivo é a mesma para os dois.

Do lado político/governamental, deveria-se, também, entender que, a longo prazo, um país somente pode desenvolver-se (economicamente, inclusive) se há educação. E, na minha opinião, música clássica não é (somente) entretenimento, mas educação. Precisamos de hospitais, escolas, universidades, museus e orquestras. Precisamos muito disso; mais do que estádios de futebol. Veja, por exemplo, a China (onde estive há três semanas). É um país que cresceu incrivelmente nas últimas décadas (economicamente, sobretudo).  Sem entrar em detalhes políticos deste país (não caberia aqui nesta coluna), na educação de suas crianças a música clássica é tão importante no currículo educacional quanto a matemática.  Existem, hoje, trinta milhões de estudantes de piano na China.  Precisa-se perguntar onde está o futuro público da boa música, quando fala-se em formação de plateias? 

Em relação a gestão administrativa interna, creio que pouco a pouco as orquestras vão caminhar para um modelo único, onde a participação dos músicos é de grande importância nas decisões artísticas da instituição. Para citar um exemplo: na Orquestra Filarmônica de Berlim, que estará procurando um novo regente em breve, com a saída anunciada do Simon Rattle, a decisão será tomada única e exclusivamente pelos músicos - representados por sua comissão. Além disso, nas grandes orquestras, a figura do diretor artístico, somada ao do regente, é cada vez mais presente.  Não significa que o regente não responda pelas decisões artísticas de seu grupo, mas de forma colaborativa. O regente titular é (e deve ser) responsável pela visão artística da organização, mas o trabalho deve ser realizado em equipe com os diversos departamentos administrativos da instituição e dividindo as responsabilidades de suas decisões.

Eu penso que é a forma mais saudável de se administrar um organismo vivo e complexo, que é uma orquestra. Desta forma, existe uma equipe que, junto com o regente, irá criar um produto artístico de qualidade e vendável. E o trabalho de equipe e inclusão dos músicos nas decisões artísticas do grupo, cria uma atmosfera mais balanceada na relação maestro / músicos.  Este tem que ser um casamento saudável, para que se crie um ambiente de trabalho positivo. Quando existe colaboração e camaradagem no palco, a mágica da performance musical toma proporções estratosféricas e o público certamente pode sentir essa energia.

Muito obrigada pela conversa Maestro Marcelo Lehninger

Tags: Artigo, coluna, JB, maior, sol

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