Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Sol maior

Conversando com o pianista Aleyson Scopel

Maria Luiza Nobre

A coluna conversa hoje com Aleyson Scopel, artista de expressividade da jovem geração de pianistas brasileiros, que acabou de fazer sua estréia no Weill Recital Hall, uma elegante sala de pouco mais de 260 lugares para música de câmara, situada no célebre Carnegie Hall de Nova York, uma das salas de concertos mais importantes do planeta. O pianista fez uma homenagem ao compositor brasileiro Almeida Prado,que infelizmente não está entre nós,um dos grandes nomes da composição e autor da obra que Scopel fez a estréia mundial na cidade americana. Como o mesmo programa será apresentado no próximo dia 8, às 18h, no Salão Leopoldo Miguez da Escola de Música da UFRJ e será feita,portanto,a estréia brasileira da obra,o que é um batizado sempre musical,ouvimos o artista, suas considerações e suas sensações após pisar o palco americano pela primeira vez. Completam o programa de domingo também obras de W.Mozart e F.Schubert. 

O pianista Aleyson Scopel
O pianista Aleyson Scopel

Você acaba de chegar dos Estados Unidos, onde fez sua estréia no Weill Hall, a charmosa e agradável sala do Carnegie Hall em Nova York, e vai brindar os cariocas com o mesmo programa executado na grande capital cultural do mundo, na opinião da coluna. Como foram suas sensações em pisar em um palco americano tão tradicional e tão especial? 

O recital no Carnegie Hall, que aconteceu dentro da programação da “Latin American Cultural Week in NYC”, no último dia 23 de novembro, foi uma oportunidade única. A Sala Weill é uma sala intimista, de fantástica acústica, ideal para recitais solo ou de música de câmara. Por ali já passaram grandes concertistas, então naturalmente foi uma grande emoção. Foi ainda um prazer inenarrável ser recebido com tanto entusiasmo por uma plateia numerosa e acolhedora, sobretudo por ter executado a estreia de uma obra brasileira tão importante, ao lado de obras-primas do repertório tradicional (completam o programa o Rondó K. 511 de Mozart e a Sonata D. 959 de Schubert). Executar o mesmo repertório aqui no Brasil será especial. 

A série dos 18 volumes das Cartas Celestes do compositor Almeida Prado é considerada uma marca registrada do grande compositor brasileiro. Você apresentou o volume 15, composto em 2009, que foi dedicado a você por Prado, porque somente em 2013 fez a estréia mundial? 

A peça do Prado, que recebi no final de 2009, foi um grande presente do prolífero compositor após ouvir minha interpretação do primeiro volume das Cartas Celestes. É uma obra primorosa que integra um dos ciclos mais importantes da literatura brasileira para piano (dos 18 volumes, 15 são para piano solo). A estreia mundial deveria ter ocorrido em 2010, porém com a morte do compositor, quis homenageá-lo postumamente executando-a pela primeira vez em um grande palco, num evento-marco de minha carreira. O Carnegie foi o espaço perfeito. A obra é extremamente bem escrita, e segue a técnica do transtonalismo do compositor, que utilizou o instrumento de maneira inovadora na exploração de timbres e ressonâncias. O volume 15 faz parte de seu último período composicional, e apresenta incursões de tonalismo livre sem funcionalidade harmônica (ou “harmonia peregrina” como dizia Prado). É dividida em 6 movimentos, e tem como subtítulo “O Universo em Expansão”. O primeiro movimento refere-se a uma estrela de 13 bilhões de anos atrás, um dos objetos celestes mais distantes já observado. São cerca de 20 minutos de uma fantástica viagem cósmica sonora!

A professora, pianista e empresária Myrian Dauelsberg sempre foi a responsável pelo ensino dos talentos jovens no piano brasileiro. Você faz parte dos nomes que estão entre as esperanças do teclado. O que você pensa das possibilidades e do mercado atual? 

Hoje em dia é cada vez mais raro encontrar pessoas como a Myrian, que sempre fez e faz tanto pela cultura em nosso país. Apesar do advento e crescimento da indústria fonográfica, além da globalização e facilidade da divulgação da música através da internet e mídias sociais, o trabalho do músico atualmente é cada vez mais difícil, o que é um paradoxo. A competição aumentou, mas acredito que com um trabalho sério e determinado, focado em resguardar a grande tradição da música de concerto aliado a um trabalho social de divulgação da música de nosso tempo e da música de nosso país, seja possível uma renovação e ampliação do público. O mercado é sempre generoso àqueles que demonstram real dedicação. As possibilidades são infinitas! 

Obrigada pela conversa, Aleyson Scopel.

Tags: coluna, JB, maior, nobre, sol

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