Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Sol maior

Conversando com o pianista Robert Fuchs

Jornal do BrasilMaria Luiza Nobre

A nossa conversa hoje é com um dos mais talentosos pianistas brasileiros, Robert Fuchs, que foi menino prodígio, fazia parte do trio de notáveis de uma época com Nelson Freire e Arthur Moreira Lima. Três talentos, três destinos diferentes, mas o mesmo ideal, o mesmo sentimento interior, que é o amor ao instrumento, o amor ao piano. A vida levou os três meninos a caminhos diferentes. Robert é um exemplo de que o cérebro e a emoção se complementam e atuam significativamente bem. Muito bem casado com Regina, é feliz, tem três filhos e seis netos. Seu sonho não acabou, porque Robert é, verdadeiramente, um pianista por toda sua vida. Jamais largou sua música. Nosso convidado sobe ao palco do Centro Cultural Banco do Brasil, dia 27, às 12h30, onde fará um recital dentro da Série Música no Museu, com obras de Bach, Schumann, Villa-Lobos, Guarnieri e Chopin, com entrada franca.

Você é um caso ímpar, em que é excelente nas duas propostas de vida que escolheu. É um grande arquiteto e um grande pianista, coisa raríssima, por sinal. É um exemplo do cerebralismo de um arquiteto e da intuição de um pianista. Qual é a sua maior realização,quando vê um projeto seu ser finalizado e se tornar um shopping center, por exemplo, ou quando toca as teclas do piano e transmite a obra de um compositor?

O pianista Robert Fuchs
O pianista Robert Fuchs

Nos dois casos a realização é muito parecida. Goethe já dizia que arquitetura nada mais é do que música cristalizada. Assim sendo, ver uma obra ficar pronta me dá praticamente a mesma emoção que tocar uma obra ao piano de forma bem realizada. Lembro-me bem, entre outros, da inauguração do CascaiShopping, em Portugal, empreendimento da Multiplan, onde dirigi a divisão de arquitetura durante 18 anos. Foi realmente emocionante ver pronta a obra que começou com um simples risco num papel (ainda não se usava computadores naquela época. Aliás, eu fui o primeito arquiteto brasileiro a usar um software hoje extremamente conhecido, mas que naquela época exigia equipamentos que muito poucas pessoas dispunham). Logo depois dei um recital, já aqui no Rio de Janeiro, em que toquei várias peças de responsabilidade. O que mais emociona? As duas realizações. Mas para ser absolutamente sincero, ao terminar de tocar, por exemplo, as Cenas Infantis de Schumann, sinto-me mais exaurido do que ao fazer uma grande obra arquitetônica, pois no piano, é você que executa a composição, enquanto que numa obra, você faz o projeto, mas uma grande quantidade de outros profissionais tiram da terra a sua ideia e a transformam em realidade. É claro que a supervisão do arquiteto é essencial, mas creio que no piano, quem supervisiona é o compositor, esteja ele onde estiver…

Você foi um menino prodígio, reconhecido como um dos talentos brasileiros daquela época, tocando com o maestro Eleazar de Carvalho com apenas 8 anos de idade.Você se deixou seduzir pela arquitetura?

Na verdade, eu não fui seduzido pela arquitetura. Arquitetura era a segunda atividade intelectual que mais me interessava. A primeira, evidentemente, era o piano. No entanto, como meus pais não dispunham de recursos para me manter na Europa estudando, e eu jamais consegui do Governo uma bolsa de estudos, gastei muitos fundilhos de calças sentado em bancos, no antigo Itamaraty, aqui no Rio de Janeiro, esperando ser recebido por quem de direito, mas nunca  consegui aquilo que eu desejava e era necessário – estudar em Viena, Paris ou Londres. Chegando aos 17 anos eu tinha que escolher uma profissão que permitisse me manter no futuro. Fiz o vestibular para a antiga Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil, passei muito bem colocado, e foi assim que arquitetura entrou em minha vida, coisa de que jamais me arrependi. Mas em mais de 40 anos de projetos, nunca deixei meu amado piano de lado, sempre praticando e, esporadicamente, dando recitais. O mais interessante é que somente recebi ajuda de pessoas ou firmas que nada tinham a ver com música. Um exemplo interessante é que aos meus 20 anos, recebi um convite de um casal amigo americano para passar minhas férias na casa deles, em Nova York. Como já disse, meu pai não dispunha de grandes recursos, e naquele instante, ele estava sendo operado de uma catarata, no Rio Grande do Sul – técnica antiga, em que a lente substituta ficava do lado de fora do globo ocular e mais parecia um fundo de garrafa. Pois quem me deu uma passagem de ida e volta a Nova York, e ainda mais em primeira classe, foi o Sr. Rubem Berta, então presidente da Varig. A história é longa, e não cabe aqui descreve-la toda. Basta dizer que ao voltar, tentei durante anos agradece-lo pessoalmente por este ato que muito me ajudou. Jamais consegui falar com ele.

O antigo Pianoestival, hoje Festival International Les Amateurs, é um encontro de pianistas amadores que atuam em outras atividades, como é o seu caso. Você foi um brilhante representante do Brasil, tocando no Théâtre du Châtelet, em Paris, para mais de três mil espectadores nos eventos. O que sentiu naquele palco?

A primeira vez que o Les Amateurs aconteceu no Châtelet não foi no grande palco, e sim no foyer do teatro. De qualquer forma, tocar no Theatre du Châtelet, nem que seja num camarim, já é uma realização emocionante. No próximo mês de junho participarei outra vez do Les Amateurs em Paris, e parece que desta vez os recitais serão no grande palco daquela famosa instituição. E é interessante saber como comecei a ser convidado para participar destes festivais. Já fazia um bom tempo que eu não tocava em público, até que em 2008 decidi participar de uma competição que eu nem sabia que existia – Concours International de Piano pour de Grands Amateurs, em Paris. Havia um limite de 100 candidatos, aberto a pianistas não profissionais de qualquer nacionalidade e/ou profissão, e o concurso seria em março de 2009. Pois eu era o único brasileiro, único sul- americano, único latino-americano e mais, único arquiteto. Em resumo, passei em todas as provas e terminei entre os três primeiros colocados, quando toquei um recital na Salle Gaveau. Depois disso comecei a receber convites para participar do Les Amateurs, que então se chamava Pianestival, e graças a isso já toquei, além do Rio de Janeiro, em Paris, em Nice, em Xangai, e proximamente novamente em Paris e em Buenos Aires. Além disso, sou regularmente convidado a participar do Musica no Museu, como é agora o caso.

Obrigada, Robert, pela conversa.

Tags: coluna, JB, maria luiza, nobre, sol maior

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