Jornal do Brasil

Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018 Fundado em 1891

País - Sociedade Aberta

Por que a festa?

Em meio a tantos problemas, brasileiros nunca deixaram de festejar carnaval. E isso não é alienação 

Jornal do BrasilBruno Filippo *

Há um samba-enredo antigo que, não tendo-se tornado clássico, sem ser tocado em festas e em carnavais posteriores, desconhecido das novas gerações, escanteou a beleza de sua letra. “O carnaval é a maior cariocatura/Na folia o povo esquece a amargura.”  A escola de samba que o cantou foi o Salgueiro em 1983, no enredo “Traços e troças”, um jogo de palavras que homenageava a caricatura e os cartunistas. Os carnavalescos foram o cartunista Lan e o importante diretor de tevê, Augusto César Vannucci. Viam-se, no Brasil, as frestas da redemocratização, que aconteceria dois anos depois, e um trecho da letra faz referência à censura: “Será/Que a política não vai me censurar/Já sei, eu já sei, certos momentos não se pode criticar!” Foi o último carnaval antes da posse de Leonel Brizola como governador do Rio, eleito nas eleições de 1982, a primeira a realizar-se desde 1965 e indicativa de que o ciclo de generais-presidentes estava chegando ao fim. A ausência de restrição a assuntos que poderia ser tratado com humor, presente em um verso, hoje está em xeque pela ascensão do politicamente correto e das patrulhas ideológicas: “A minha pena não tem pena nem perdoa/Mexe com qualquer pessoa/Ela quer se divertir.” A beleza poética atinge o ápice no refrão principal: “O carnaval é maior caricatura/Na folia o povo esquece a amargura”. 

O refrão é rico pelo que nele há de ambíguo – mesmo que não tenha sido esta a intenção dos compositores – e pelo que revela de um de nossos dilemas. O povo perde a amargura na folia porque é passivo e folgazão, interessando-se somente pelo que lhe é lúdico e hedonista, o momento mais perfeito de nossa alienação, a caricatura do brasileiro? Ou o carnaval é uma caricatura porque, exatamente nessa data, o povo pode libertar-se das amarras,  das tensões e  das angústias cotidianas, fazendo da festa uma válvula de escape que lhe é vedada o restante do ano? 

Enquanto milhares saem às ruas ou desfilam em escolas de samba em grandes, o sentimento – na verdade, acusação – de que o brasileiro é alienado  viceja com a força das redes sociais nestes dias em que crise política, institucional e econômica misturam-se no noticiário. A energia que nos mobiliza para brincar poderia ser canalizada para revoltar-se contra as mazelas do país – e transformá-lo. O carnaval seria, portanto, a versão Pau-Brasil do panem et circenses. Nesse duelo, um dos argumentos mais utilizados por quem defende o carnaval escora-se em discurso econômico. Empregos diretos e indiretos são gerados, cifras bilionárias são movimentadas nessa indústria do entretenimento. Não é um discurso desprezível; mas, se for o principal ou mesmo o único, oferece de bandeja aos interlocutores um contra-argumento: como muitas atividades econômicas são paralisadas durante a folia, a arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS) diminuiu, como acontece na cidade do Rio de Janeiro. Ou podem basear-se nos dados  do IBGE e da Fiesp segundo os quais, quando o carnaval cai em março – como mais recentemente em 2011 e 2014 - ocorre uma queda na produção industrial. Os números da indústria do carnaval não compensam as perdas. 

O raciocínio econômico nem de longe responde ao dilema, posto que se baseia na apropriação da festa pela indústria cultural, um processo que se consolidou, a ponto de gerar números tão grandiosos, nas últimas três décadas. Muito antes disso, já éramos o “país do carnaval.”  Sendo a economia uma seara pouco consistente para pavimentar a polêmica, coube às ciências humanas essa tarefa, cumprida, em muitos casos, sem cair na simplificação de que “todo povo tem sua festa, seu ritual” - um clichê que congela qualquer esforço interpretativo mais denso. 

O trabalho mais famoso e polêmico, que traz “dilema no subtíulo” no subtítulo, é do antropólogo Roberto DaMatta.  Carnavais, malandros e heróis – Para uma sociologia do dilema brasileiro foi lançado no início de 1979, e é um dos livros mais utilizados em dissertações e teses. DaMatta inspira-se na obra de Mikhail Bakhtin, autor de A cultura popular na Idade Média e no Renascimento – O contexto de François Rabelais, um clássico do estudo da cultura popular. Nela o linguista  e crítico literário russo defende a ideia de que, na Europa do início da Idade Moderna, a “carnavalização” - eventos com uma estética de riso, chacota, pilhéria, zombaria aos poderosos e à cultura oficial da Igreja e do Estado, excessos no comer, beber e no comportar-se – promoveu a inversão social dentro de uma moratória do cotidiano, uma subversão da ordem vigente. A estética carnavalizada está presente em autores clássicos da literatura: além de Rabelais, Boccaccio, Cervantes e Shakespeare. (Há um livro que pode ser lido como um complemento e, em vários trechos, como contestação às teses de Bakhtin. Chama-se A cultura popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800, do historiador britânico Peter Burke)

Adaptando-a à realidade brasileira, DaMatta, que curiosamente não chega a citar Bakhtin, chega à conclusão de que o autoritarismo e as rígidas hierarquias sociais, características de nossa sociedade, são transgredidos durante três ou quatro dias, quando se manifesta claramente uma espécie de “consciência coletiva” de nossas mazelas. Uma empregada doméstica, ao fantasiar-se de rainha, e um homem de classe média ou alta, ao vestir-se como um sem-terra, um sem-teto ou um gari, (sim, isso já aconteceu), mais do que invertem seus papeis sociais – mostram que há uma linha divisória que sabem reconhecer, donde se conclui ser inapropriado falar em alienação, pois se trata exatamente do contrário: os indivíduos sabem seu papel social; e, aos que desempenham o ano inteiro o papel de oprimidos, é-lhes dada a chance de mostrar que gostariam de gozar de uma realidade bem diferente. Dois outros conceitos são importantes para Roberto DaMatta:  a “casa” e a “rua”, o privado e o público como espaços de sociabilidade. A casa é o ambiente seguro em que o indívíduo é protegido dos perigos da rua. Mas a segurança tem a restrição das regras e dos limites da vida familiar. No carnaval, rua e casa subvertem seus papeis. Ocupando as ruas, o povo faz delas sua casa, sem os códigos de conduta da vida privada e sem temer-lhes o perigo. É quando a moça inibida e reprimida sexualmente fantasia-se de forma sensual, ou desfila seminua no alto de uma alegoria de escola de samba. Ou quando o homossexual “enrustido” encontra uma válvula de escape para vestir-se como mulher. Com isso, o carnaval brasileiro infunde, na sociedade, valores igualitários e democráticos, inexistentes ao longo do ano. 

A teoria de Roberto DaMatta é tão aceita quanto rejeitada. Parafraseando a crítica que a esquerda costuma fazer a Gilberto Freyre, atribuindo a ele a tal da democracia racial, acusa-se o autor de Carnavais, malandros e heróis  de valorizar uma espécie de “democracia carnavalesca”, em que os conflitos sociais desaparecem como que por mágica, em uma irmanação festiva das classes sociais. A antropóloga Maria Isaura Pereira de Queiroz,  no livro Carnaval Brasileiro - O vivido e o mito, foi uma das  primeira a contestar a visão bakhtiniana (e “damatiana”) do carnaval. Para ela, o carnaval real é aquele que reflete, e não subverte, a ordem social vigente. Assim como ela, estudiosos apontaram uma confusão entre inversão e sua representação. Um pobre vestido de rico não o faz rico. Um rico fantasiado de pobre não o leva a vivenciar as mazelas da pobreza. O carnaval é um grande palco em que os atores representam personagens, mas não os são concretamente. Logo, não há que se falar em inversão, pois esta nunca existiu em realidade – somente como ficção. 

A distinção entre as esferas pública guarda elementos ilusórios. A “segurança” da casa pode camuflar um espaço de violência, opressão e, como nas obras de Nelson Rodrigues, de transgressão de comportamento familiar.  E a “subversão” das ruas no carnaval  pode ser o momento de tornar mais explícito  os conflitos sociais do Brasil. Este é o leitmotiv  da historiadora Maria Clementina Pereira Cunha no livro Ecos da folia – Uma história social do carnaval carioca entre 1880 e 1920, uma análise marxista das manifestações carnavalescas que antecederam as escolas de samba. Ela mostra que, no entrudo, nos blocos, nos ranchos e nas grandes sociedades, conforme as camadas sociais em que surgiram e deles participavam, a luta de classes se exibia simbolicamente em praça pública quando a cidade já era conhecida pela excelência e pela variedade de seu carnaval. 

Roberto DaMatta detém-se longamente no fenômeno das escolas de samba do Rio de Janeiro, que à época ocupavam com mais força posição de centralidade simbólica do carnaval como sinônimo de brasilidade. Encaixar as escolas de samba dentro do conceito de carnavalização de Bakhtin apresenta inúmeros problemas.  Mais próximos do escárnio e da pilhéria, com crítica social e política, estão na verdade os blocos de rua, e isso se explica pela  natureza diferente de ambos como agente ativo da ocupação das ruas. Desde a sua origem, na década de 1920, entre as camadas mais desfavorecidas do Rio, as escolas sempre mantiveram um caráter competitivo entre elas, apolíneo, com regras, regulamentos escrito e fiscalizados por elementos externos (os jornais cariocas, incluindo o “Jornal do Brasil”,  exerceram esse papel no início, como extensão ao que já faziam os ranchos). Não era brincadeira descompromissada, espontânea,  mas competição, o que exigia dose de disciplina. Por essas características, evoluiu lentamente para o entretenimento, para o espetáculo, para o show business. É um evento para ser visto.  (Peter Burke situa esse fenômeno no carnaval europeu entre os séculos XVI e XVIII) Daí o surgimento das lideranças que tinham de negociar com o poder público e controlar seus integrantes. Quem conhece por dentro os bastidores das escolas de samba sabe que nelas existe forte hierarquia  social. Seu universo sempre foi pouco democrático, sem que a maioria de seus integrantes tenham voz ativa nas decisões tomadas. De figuras que se tornaram mais conhecidas desde os tempos românticos, como Natal da Portela e Osmar Valença no Salgueiro, até os contemporâneos contraventores do carnaval carioca, passando por policiais, milicianos e traficantes que passaram a disputar o naco de poder da folia – segundo inúmeras denúncias nas últimas décadas - pouco se pode falar de igualitarismo e democracia. 

A estrutura apolínea das escolas, baseada na ordem e na disciplina e na dependência de recursos do poder público, levou-as a abordar, até os anos 1960, enredos pouco afeitos a qualquer coisa que soasse subversiva. Com o tempo, abriram-se brechas para enredos que retratassem outra realidade brasileira, o que incluía crítica política, e aí aumentou contradição entre a mensagem que elas transmitiam e sua realidade. De grande exemplo é a Beija-Flor de Nilópolis. Comandada há décadas pelo contraventor Anísio Abraão David – que já prepara a sucessão para o filho de vinte e poucos anos -, nos anos 1970 teceu loas ao regime militar. Décadas depois, no primeiro carnaval da Era Lula, uma gigante escultura do presidente encerrava o desfile. Em 2018 desfilará com enredo com críticas à desigualdade. 

Além da temática, a estética das escolas de samba difere muito dos festejos que serviram de mote para a construção teórica de Bakhtin. As escolas são tributárias, historicamente, de dois modelos: a estrutura dos ranchos – também apolínea, organizada, competitiva - e o visual das grandes sociedades. Estas, inspiradas no carnaval europeu a partir do Renascimento, eram luxuosas e desfilavam com grandes alegorias. Já a estética da carnavalização é a do grotesco, que tem por objetivo provocar riso pela distorção, pela assimetria, pelo ridículo, pelo que está fora dos padrões de beleza. Nada mais distante do encantamento e da exuberância do estilo barroco que desfila na Marquês de Sapucaí. 

É evidente que há brechas para que se introduza algo parecido com o grotesco. Ninguém entendeu melhor isso do que o carnavalesco Joãosinho Trinta em 1989, na mesma Beija-Flor que elogiava o Mobral, PIS, PASEP e o Funrural como feitos do regime militar, ao vestir uma ala enorme de mendigos e a tentar fazer o mesmo com a imagem do Cristo Redentor. Proibido pela justiça a pedido da Igreja Católica, o Cristo desfilou coberto com plástico preto e com a faixa que trazia a inscrição: “Mesmo proibido, olhai por nós.” É uma das imagens mais icônicas do carnaval, e esse desfile é considerado por muitos pesquisadores o maior da história. Hoje o grotesco, no carnaval, é mais fácil de encontrar nas fantasias de indivíduos que saem nos blocos que lotam as ruas de Rio, São Paulo e outras cidades. 

“O carnaval é a maior caricatura/Na folia o povo esquece a amargura.” A construção ideológica de uma brasilidade homogênea e totalizadora só encontra um simulacro nos blocos e nas festas de rua em que não há espaço para delimitação de público – cujo crescimento é uma das marcas deste século. Mas isso pode estar ameaçado. No Rio, alguns não quiseram divulgar horário e local do desfile para não atrair muita gente. (Isso já aconteceu faz uns dez anos; mas diante das críticas, abriram-se ao povo. Agora, a prática retorna)  Em São Paulo, formou-se o “Porão do Dops”, bloco formado por indivíduos que defendem a ditadura militar no Brasil e homenageiam torturadores da ditadura anterior. Foi impedido pela Justiça de desfilar.   

* Bruno Filippo é jornalista e sociólogo. Autor do livro “Por quem as rosas falam – E outros ensaios sobre samba e carnaval”

Tags: aberta, artigo, carnaval, jb, sociedade

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