Jornal do Brasil

Quarta-feira, 23 de Maio de 2018 Fundado em 1891

País - Sociedade Aberta

A verdadeira assassina

Jornal do Brasil Celso Franco

O último dia 18 deste mês que está terminando, chocou a todos nós a tragédia de um carro desgovernado, não interessando o motivo, que matou um bebê, feriu mais de dez pessoas, invadindo as areias (!) da Praia de Copacabana.

Quanto ao argumento do atropelador de que teve um  “apagão” face a ser epilético, coloca parte da responsabilidade no exame para a autorização de dirigir, não, como dizem, ao direito de dirigir, realizado pelo DETRAN. Como decano dos ex-diretores daquele órgão e especialista nos assuntos referentes à “ciência do controle do trânsito”, que abrange as medidas concernentes ao motorista, o veículo e a via, tenho o dever de apontar uma correção nas exigências do questionário a ser preenchido pelo candidato, face da sua importância no que se refere às possíveis doenças ou remédios que ele possa estar dependente. Quem deve responde-las é o médico que o assiste, atestando as suas declarações, com firma reconhecida em cartório. Estará assumindo, com a autoridade que sua formação acadêmica lhe dá, sobre o estado de saúde do futuro condutor, sob pena de processo criminal por “falsidade ideológica”, em caso de dar informações falsas, como ocorreu com o causador do trágico acidente. Esta exigência  deve ser também quando da renovação da autorização para dirigir.

Era o que me cabia, por dever profissional, comentar sobre essa tragédia que, se tomadas as medidas que recomendo, do alto de mais de meio século de estudos e atividades relativas ao assunto, não mais aconteçam.

Em seguida, coerente com o título, devo comentar as excelentes e honestas considerações do arquiteto e urbanista Washington Farjalo, publicadas pela grande  mídia, com o título: “Auto crítica da velocidade”. E o farei face à sua honesta e humilde declaração, em seu texto, quando se exime de comentar o aspecto psicológico, quando escreveu: “Talvez até exista uma dimensão psicológica, mas não tenho competência nesta área”.

Meu caro professor, embora com esta resalva, a sua análise, como urbanista reconhecida a sua competência por seus pares, realizou um excelente estudo sobre os limites de velocidade, ditados pelo nosso Código de Trânsito, acertando em cheio, quando afirma: “Somos viciados em velocidade”. Foi esta a “deixa” que aproveitei para complementar as suas corretas observações.

Comecemos com a afirmativa usual sobre a educação no trânsito. Ela só é valida para os que ainda não são motoristas, quando passam a ser motoristas, são primatas condicionados ao principio que comanda sua reações, ou seja, o PIEV, sendo o P de percepção, E de moção, I de inteligência e V de volição, que irá condiciona-lo através a sinalização urbana, nos seus três aspectos, gráfica horizontal, gráfica vertical e semafórica. Este último, erroneamente utilizado em nossa cidade é a  grande responsável pela, como bem disse o autor do texto agora analisado de nosso “vicio de velocidade”. As campanhas, que aqui seriam chamadas de educacionais, na Europa  são chamadas de segurança.

A engenharia de tráfego, a “ciência esquecida” com a classificou uma publicação de 1975 da Phillips, deve, como principio  básico utilizar ao máximo o espaço viário existente. Por ter tido a minha formação neste ramo, em território europeu, onde nem sempre é possível se realizar obras de aumento da área viária, especializei-me profundamente na “ciência esquecida” e ela se baseia principalmente visando otimizar o uso da malha viária, pelo controle da velocidade.

Um estudo minucioso da Siemens, em folheto de 1968, demonstra, por pesquisa e perfeitamente justificado, que a velocidade que melhor garante o uso ao máximo da capacidade de uma via, é o limite 60 ou 50 km. E agora chegamos ao “clímax” de nossa análise da velocidade. A moderna sinalização semafórica que comanda o sistema de válvulas que regulam o fluxo de escoamento, não obedece a um controle informatizado, controlado por computador que funcione considerando o  perfil atual do tráfego e, para que isto funcione, incentiva os motoristas a andarem em grupos (platoons) “surfando na onda verde”, nos grandes eixos que irá premiar os que andam em grupos e rejeitar o individualismo, habituando-os  a respeitar os limites de velocidade, que regulam a abertura  em sequência, dos semáforos. Este sistema condiciona os motoristas a respeitarem a velocidade ótima e a buscar andar em conjunto com os demais veículos circulantes. E o que oferecemos aos nossos motoristas?

Semáforos que abrem ao mesmo tempo em cinco ou mais cruzamentos, num incentivo a uma individual competição de velocidade para ver quem consegue mais semáforos abertos. É esta cultura que vicia, como bem observou o professor Fajardo.

Os limites recomendados pelo nosso Código de Trânsito são baseados em estudos de técnicos especializados, dando liberdade aos engenheiros de tráfego a utilizá-lo com discernimento. Infelizmente, embora eu os recomende, desde há muito não identificam as diversas vias do sistema viário, com faixas de cores diferentes em seus  postes para cada classificação, com o propósito de condicionar ao motorista a respeitar os limites de velocidade, em beneficio da segurança dos pedestres.

Enfatizar as vantagens de se atravessar na faixa, onde na Europa o atropelamento nelas é crime inafiançável, graças ao limite máximo urbano de velocidade de 50km. Em compensação o fora da faixa isenta de totalmente de culpa o motorista, dede que não esteja bêbado ou drogado.

Acredito que pude esclarecer o assunto muito bem abordado por um urbanista, deixando-lhe, ao parabenizá-lo, o recado de que o trânsito é sem a menor dúvida, a super função urbana e como tal deve respeitar as normas do urbanismo, o que aliás, quando responsável por ele, no antigo Estado da Guanabara, sempre as respeitei. 



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