Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Maio de 2018 Fundado em 1891

País - Sociedade Aberta

Pesquisa enganadora

Jornal do Brasil Celso Franco

Como anunciado, aconteceu no Clube de Engenharia a importante palestra do secretário municipal de Transporte, Fernando MacDowell, tendo como tema a”Mobilidade Urbana”. Com a honestidade que o caracteriza e a competência que o levou ao cargo, discorreu mostrando os projetos em estudo para melhoria do transporte público, cuja deficiência é, sem dúvida, o fator principal  a afetar a mobilidade urbana. Humildemente, não saiu dos limites de suas atribuições, sequer mencionado as medidas possíveis com a aplicação da engenharia de tráfego, cumprindo o seu papel de “aproveitamento ao máximo das condições viárias existentes o que, e ele sabe, não acontece.”

Espero poder contribuir na sua luta (inglória?) para dotar o Rio de uma eficiente mobilidade urbana e, para tanto, pretendo, em curto prazo, expor o sistema URV que irá complementar o seu magnífico planejamento. Infelizmente, todas as medidas a longo ou médio prazo, numa cidade que emplaca cinco mil carros por mês. Estaremos cumprindo a lapidar resposta do saudoso engenheiro Gerardo Penna Firme, quando, na década de 60, então diretor de engenharia do Detran-GB, ao ser perguntado da importância do transporte eficiente para a mobilidade urbana, respondeu: “O transporte eficiente está para mobilidade urbana como o sexo para o casamento. Ambos são muito importantes mas, sozinhos, não trazem a felicidade completa”. É para se ter a felicidade completa que irei apresentar no mesmo local, o sistema URV, cujo projeto já foi apresentado ao digno secretário Municipal de Transportes.

Mas, hoje, esclarecido o que pude ver na agradável reunião no nosso Clube de Engenharia, falarei sobre uma amadorística pesquisa realizada, recomendada pelo Instituto Clima e Sociedade, em parceria com o Instituto Escolhas, que, confesso, nunca havia ouvido falar, cujo resultado foi publicado, com destaque, na grande mídia.

Lá aparece a escolha, segundo a pesquisa, de âmbito nacional (e aí é que morou o erro) das preferência sobre os meios de  transporte do povo brasileiro. Por escolha errada do universo pesquisado, aparece o metrô em quarto lugar, atrás do ônibus, em segundo, a bicicleta, em terceiro e, logicamente, o automóvel em primeiro.

Não precisa ser especialista para ver que existe algo errado. A pesquisa, para ser levada a sério, deveria ter sido realizada no Rio ou em São Paulo, onde as redes de metrô estão de fato, presentes. Sou testemunha entusiasta do metrô, único meio de transporte capaz de retirar carro de passeio das ruas, e deve disputar “cabeça com cabeça” a liderança com o automóvel. Eu, morador da Barra, sou testemunha disto ao ver a quantidade de veículos estacionados ao redor da estação final no Jardim Oceânico, fora os que somente vêm deixar o futuro passageiro do metrô. No meu caso especial, quando já atingi, ontem, dia 21, 92 anos, vendi o meu carro por somente ir ao cento uma vez por semana, ficando a família somente com o carro de minha esposa. Econômico, inteligente e prudente. Mas, no mais, eu diria, até inocentes foram as opiniões dos entrevistados na tal matéria da grande mídia.

A do professor Pastor Willy Gonzales Taco, coordenador do Centro Interdisciplinar de Estudos em Transportes, da Universidade de Brasília, a avaliação negativa tem muito a ver com a má qualidade dos serviços oferecidos pelas empresas de ônibus. Mas também com o esforço de marketing das montadoras de veículos que usam a mídia permanentemente para mostrar as vantagens dos carros.

Ora professor, com todo o respeito que merece a sua pessoa, as montadoras não precisam de publicidade para vender simplesmente os seus produtos. Elas utilizam a mídia pela competição entre elas. O maior motivo para que o usuário de transporte desejar um carro é a deficiência que apresentam estes serviço. Não se esqueça, se ainda não sabe, que Henry Ford, em 1912, ao celebrar o grande sucesso de vendas de seu produto, fruto da linha de montagem, declarou para quem quisesse saber: “Atribuo o meu sucesso de venda aos sentimentos de preguiça e desejo de conforto inerentes à pessoa humana”. E eu lhe pergunto: Qual veiculo de transporte fornece estes desejos, exceção do metrô? 

Como fecho de tudo que aqui tento demonstrar, não encontro melhor destaque do que a declaração do professor, especialista em transportes, Alexandre Rojas, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro: “Aqui no Rio, a questão de segurança no transporte é um ponto adicional. Então, as pessoas preferem pegar uma carona compartilhada pelo Uber do que andar de ônibus”.

O transporte compartilhado, entre donos de carro, contribuindo para o uso racionado das vias, insuficientes para atender a demanda de carros de passeio, utilizados como meio de transporte, hoje 96% transportando apenas o seu condutor, nas horas de pico, é exatamente o que o sistema URV, está propondo, já entregue nas honradas mãos do secretário municipal de Transportes, na esperança de que a “união faz a força” capaz de vencer um problema, muito mais político do que técnico. É esperar para ver.



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