Jornal do Brasil

Segunda-feira, 23 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Sociedade Aberta

Operação de alto risco

Jornal do Brasil Celso Franco

Li com certa apreensão que a Prefeitura vai apresentar  “novo modelo” para o Rio Rotativo. O título de “novo modelo” já me pôs a “pulga atrás da orelha”. Não existem “modelos” para o controle dos locais de estacionamento, muito bem definidos no livro fundamental para se equacionar o problema do destino dos usuários de carros, de autoria do especialista inglês John Brirley, intitulado “Parking of Motors Vehicles”, adquirido por mim em 1966, quando ainda no serviço ativo da Marinha, esperançoso de poder ser o Diretor de Trânsito de minha cidade estado. Todo estudo de circulação de trânsito que mereça confiança começa com a pesquisa de origem e destino dos autos de passeio, a fim de se conhecer as suas “linhas de desejo” para atingir seus destinos na malha viária urbana. Ao administrador, não cabe controlar os destinos de uma cidade já pronta, mas tem o dever de poder controlar os destinos, e a sua grande ferramenta é a política de estacionamento, não “modelo”, a fim de facilitar a fluidez nas vias de acesso às áreas de destino, sempre congestionadas nas horas de pico.

Causou-me também estranheza a constituição do grupo de trabalho que irá estudar o assunto e apresentar o seu plano. Falam em nove autarquias e secretarias municipais. Pela constituição do grupo, estarão procurando “chifre em cabeça de cavalo” e, claro, não irão encontrar.

Há cerca de meio século, em 1967, pela primeira vez nesta cidade se fez um estudo realmente técnico da distribuição e dos regimes de tempo do estacionamento na cidade do Rio de Janeiro. Criou-se uma comissão denominada Comissão de Estudos do Estacionamento, a Coeses, presidida por um professor de urbanismo, pertencente à divisão de engenharia do Detran, composta de um arquiteto especializado representando do IAB, um engenheiro especializado do Clube  de Engenharia, um engenheiro especializado da Futreg (Fundação dos Terminais Rodoviários do Estado da Guanabara) a qual cabia explorar, junto com a  Associação dos Guardadores Autônomos, o estacionamento rotativo, um representante desta associação, o consultor jurídico do Detran, e um representante da  Associação Comercial, sempre convocando um representante do bairro em estudo. Somente este reduzido grupo, altamente conhecedor do assunto e com prazo de dois meses, a fim de apresentar o plano global que incluía, também e principalmente, a definição dos locais de garagens para estacionamento de longa duração, de preferência no subsolo das praças.

Realizaram um trabalho primoroso que, se cumprido à risca, livraria os bairros da Zona Sul de problemas de estacionamento, já existentes naquela época.

Aliás, do planejamento efetuado só construíram, com muita luta, o terminal garagem Menezes Côrtes e o da estação rodoviária, ali no inicio da Avenida Rodrigues Alves.

Convém ressaltar que existiam e, existem, peculiaridades como as dos bairros Copacabana, Ipanema e Leblon onde coexistem as necessidades de atender aos usuários do lazer noturno, lazer da praia, dos usuários do comércio, dos prestadores de serviço e dos moradores, sem garagem nos seus prédios. Deste serviço nasceu o controle por disco para o estacionamento, que mereceu do governador Negrão de Lima o elogio “por este trabalho civilizado”. Ficou também faltando uma sinalização orientadora de onde existissem locais, fora dos junto ao meio-fio, em locais especiais, para se estacionar fora das vias de rolamento.

Tudo isto que aqui escrevi, longe de ser uma crítica, é uma advertência, fruto da “voz da experiência” de quão profissional e técnico deve ser este planejamento, tantos serão os interesses contrariados para que,  depois, e somente depois, se faça a concorrência dos diversos lotes, se assim quiserem para sua exploração, garantindo a prioridade de escolha para a Associação do Guardadores Autônomos, criada no governo Negrão de Lima, por sugestão de seu diretor de Trânsito e que, por gratidão, este último ainda tem o seu retrato na sede da Associação, ainda nos seus verdes 41 anos de idade.



Tags: artigo, celso, franco, jb, trânsito

Compartilhe: