Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018 Fundado em 1891

País - Sociedade Aberta

O poder se espalha

Jornal do BrasilSelvino Heck

A camiseta fez sucesso, com toda razão. Gamei, quando a vi. Recebi-a no Encontro Macro Regional Nordeste da Rede de Educação Cidadã, RECID, acontecido no Centro de Formação Paulo Freire em Caruaru, PE, 12 a 14 de outubro, com apoio da Casa Pequeno Davi e Comunidade Europeia. Usei-a duas vezes. Primeiro, em Cruz Alta, RS, sábado, dia 21, na última etapa da Escola Cristã de Educação Política (ECEP), das dioceses de Cruz Alta e Santo Ângelo, com o tema geral ‘Novas Concepções e Caminhos na Organização da Sociedade a partir do ECEP/2017’. Depois, domingo, 22, na Casa da Partilha, Gravataí, Encontro dos grupos de CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) da Arquidiocese de Porto Alegre.

 Está escrito na parte da frente da já famosa camiseta: QUANDO O POVO SE JUNTA, O PODER SE ESPALHA. E nas costas: A NOSSA COMUNIDADE TEM A NOSSA VOZ.

A pergunta de início dos trabalhos nos dois Encontros foi: Onde está a esperança/utopia na realidade e vida de vocês neste momento da história mundial, latino-americana e brasileira? Em outras palavras, ainda há esperança? Onde ela está? Como torna-se visível, palpável, na escola, na comunidade nos movimentos sociais, na política, na diocese, na família. na sociedade, na paróquia, no município, no Estado, no país?

Nestes tempos de crise, tempos sombrios, mesmo sabendo que crises oferecem riscos, e podem levar ao caos ou à barbárie, como no caso atual, é preciso estar atento e ver as oportunidades, descobrir onde há esperança florescendo.

Em Tacaimbó, Pernambuco, e em outras cidades e Estados do Nordeste, como no Estado do Maranhão, o analfabetismo está sendo enfrentando usando o método cubano de alfabetização ‘Eu posso’. Declarar Tacaimbó município livre do analfabetismo era a palavra de ordem no auditório lotado da escola onde aconteceu seu lançamento. Nas palavras de Jaime Amorim, dirigente nacional do MST, Movimento que vai aplicar o ‘Eu posso’: “É preciso que todos sejam guerrilheiros da educação.” O prefeito da Tacaimbó, Álvaro Marques, disse: “Cada governo tem que deixar uma marca. Cada um tem que dizer o que fazer nesta vida. O político é também um educador popular.” E Rubineusa, educadora do MST: “Sempre é tempo de aprender, sempre é tempo de ensinar. O mestre é aquele que nunca perde a capacidade de aprender.” 

O Encontro Macro Nordeste da Rede de Educação Cidadã deu expressão e voz à frase, ‘da força do povo, brota um Nordeste novo’. Dezenas de educadoras e educadores populares refletiram, à luz da educação popular-crítico-freireana, os caminhos da organização e conscientização popular. E dizem na Carta final do Encontro: “Querem tirar de Paulo Freire o título de Patrono da Educação Brasileira. A luta, não por causa do título, mas por causa do simbolismo que representa e da justa homenagem para quem é o brasileiro mais lido, conhecido e traduzido no mundo, é por mantê-lo. O que é mais importa, no entanto, é o fato dos pobres o e oprimidos do mundo, especialmente os da América Latina, da África e Brasil, terem aprendido a ler e escrever, em primeiro lugar, e continuarem aprendendo. Mais que escrever as letras, as sílabas e a palavra ‘tijolo’, aprenderam que o tijolo quando se junta a outro tijolo, ‘espalha poder’, e assim a comunidade tem voz, é capaz de construir, coletiva e solidariamente, sua consciência de mundo e sua libertação. Por isso, o pernambucano, nordestino e brasileiro Paulo Freire está vivo nos corações, nas mentes, nas consciências, dentro e fora das escolas, no agreste, no sertão, no Pampa, na Amazônia, no Cerrado, no Semiárido, no Pantanal, no campo e na cidade, nas místicas das/os educadoras/es populares, das/os lutadoras/es, que a cada dia forjam sua história e a transformam em História.” 

Em Salvador, Bahia, o lançamento e o Seminário Internacional do Fórum Social Mundial, dias 17 e 18 de outubro, foi uma celebração, misturado aos milhares de estudantes que participaram do Congresso da UFBA. Debates de todos os tipos e temas, música, festa, alegria, entusiasmo deixaram antever que o FSM/2018, a realizar-se de 13 a 17 de março, será oportunidade, não risco, muito menos caos ou barbárie. Será um acontecimento, dizendo e proclamando que ‘um outro mundo é possível’, urgente e necessário.

As frases são simples e retratam o que militantes, lutadoras/es, educadoras/es populares fizeram/fazem e sonharam/sonham a vida inteira. ‘Quando o povo se junta, o poder se espalha. A nossa comunidade, a minha, a tua, tem a minha, a tua, a nossa voz.’ Não a voz dos outros, não a voz de cima, não a voz do chicote, do mando, da ditadura, do golpe, da traição. A voz da solidariedade, da justiça, da igualdade, do fazer junto, do ser irmãs/irmãos, companheiras/companheiros. Diz a Carta da RECID, no último parágrafo: “Sentimo-nos engravidados de sonhos, de esperança freireana. Temos clareza que a mudança não será fácil, mas que é possível. Estamos convictos da necessidade de continuarmos a luta. Esta luta nos convoca, a cada nascer do sol, a nos fazermos presentes pelo anúncio desse mundo sonhado e possível. Estamos atentos e fortes na perspectiva da construção do Poder Popular, ousando sonhá-lo, mesmo sabendo que, na verdade, a transformação do mundo a que sonhamos e aspiramos é um ato político e seria ingenuidade não reconhecer que os sonhos têm seus contra-sonhos’.

Quando, porém, o povo se junta, o poder se espalha, sai das torres, corruptos são desinstalados, ditadores são varridos do mapa, o poder torna-se popular, é do povo. E a comunidade será a minha, a tua, a nossa voz. 

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Tags: aberta, artigo, jb, selvino, sociedade

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