Jornal do Brasil

Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

País - Sociedade Aberta

'Out of tune'

Jornal do BrasilCelso Franco

A grande mídia publicou os resultados do esforço em melhorar o nosso calvário na cidade do Rio de Janeiro, fruto do conclave: “Reage Rio”. Vou, como é lógico, somente analisar as propostas para resolver ou melhorar a nossa ridícula mobilidade urbana.

Confesso que fiquei chocado e, volto a ressaltar, com exceção das sugestões do professor da Coppe, Paulo Cesar Ribeiro, quão “fora de foco” estão as soluções sugeridas pelos demais componentes deste painel. Demonstram e comprovam o que eu sempre me queixo, de que não me preocupam os que não enxergam as soluções, mas sim aqueles que não enxergam o problema. Demonstram também o seu desprezo pelo controle das estatísticas, fruto das pesquisas para se equacionar as soluções. Enfim, não enxergam mesmo o problema, todos defendendo a melhoria dos transportes por ônibus ditos de massa, ou a reformulação do “uso da terra”. Estão, por assim dizer, plagiando Tom Jobim, no título em inglês de sua composição “Desafinado”, “Out of tune”. Realmente, “fora do tom”.

Nenhum dos que defendem a melhoria dos transportes de superfície se preocupou em saber quantos veículos de passeio, erradamente fazendo o serviço de transporte casa-trabalho-casa, conduzindo apenas o seu motorista, é retirado com esta melhoria que propuseram. Na verdade, nunca se pesquisou quantos donos de automóvel trocam o seu conforto e comodidade, em seu carro, pelos sofríveis ônibus que lhes são oferecidos. E sabem por quê? Já em 1912, Henry Ford atribuía o sucesso da sua produção de carros populares ao sentimento inerente ao ser humano, de preguiça e conforto. Assim sendo, caso o transporte que se lhes ofereça não satisfizer seus sentimentos, não será usado. O único capaz de fazê-lo, o metrô, é de construção demorada e caríssima para uma cidade que emplaca 5 mil carros/mês. Seria o caso de escrever: “Acorda, Alice”, ou não?

O motivo da nossa ridícula mobilidade urbana que, em primeiro lugar, está a exigir uma definição correta, é o excesso de carros ocupando 80% do espaço viário, contrastando com o dos ônibus, cuja ocupação é o que sobra 20%, conduzindo ao menos 70 passageiros cada um. Cabe aqui a observação do secretário de Transportes do governo Nixon, num conclave sobre transportes, em Pittsburgh, ao qual estive presente: “O governo deve escolher se faz política para que mais veículos circulem ou mais pessoas”

A conclusão lógica, insisto, é a adoção do sistema de Uso Racionado das Vias, o URV, uma vez que a oferta de espaço é muito inferior à demanda. Eliminando o desperdício de transporte por carros de passeio com apenas o seu condutor, nas horas de pico e, garantindo uma mobilidade com o rendimento entre 50 a 80%, criando com sua arrecadação a reformulação total, do atual vergonhoso sistema de exploração do transporte público, por ônibus, tornando-o  gratuito para os seus usuários. 

Para fazê-lo, encontramos um obstáculo quase intransponível: a covardia política de nossos governantes no fundamento de “não me comprometa”, ignorando de maneira pouco inteligente que, se vai contrariar os usuários de carros, vai beneficiar, e muito, os usuários de ônibus, em muito maior número e, consequentemente, em número de votos.

Mais uma vez, “acorda, Alice”, citando Lewis Carol, em seu romance: “Alice no País das Maravilhas”.

Tags: aberta, celso, franco, sociedade, texto

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