Jornal do Brasil

Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

País - Sociedade Aberta

Uma situação que poderia não existir

Jornal do BrasilCelso Franco

Cerca de vinte dias atrás, a grande mídia anunciava o justo perdão das multas por avanço de sinal dos BRT. O seu longo comprimento fazia com que o seu segundo vagão fosse fotografado como avançando o semáforo vermelho, uma vez terminado o amarelo. Foi um razoável prejuízo aos cofres da Prefeitura, absolutamente evitável, houvesse um controle estatístico sobre o comportamento destes veículos de transporte de massa. 

Não me canso de alertar da importância do controle estatístico para se gerir o trânsito, como são os exames de laboratório, para o médico clínico formar um diagnóstico. Felizmente, a Prefeitura reconheceu a sua responsabilidade no mau equacionamento do problema criado pela o que os especialistas chamam de “Zona de dilema”. E o que é isto?

Não posso admitir que um engenheiro de tráfego, que faça jus a este título, não saiba o que é isto, tal a sua influência no escoamento do tráfego comandado por uma sinalização semafórica apropriada.

A indispensável publicação “Traffic Control” Theory and Instrumentation, prefaciada pelo legendário  Traffic Commissioner de New York, Henry Barnes, dedica uma importante parte de seu texto ao problema intitulado:  “Zona de Dilema” iniciando a sua explicação e equacionamento com o seguinte trecho: “À frente de você está uma intercessão onde o semáforo se tornou amarelo, que é o sinal de precaução entre  o verde e o vermelho, a fim de alertar o motorista que é tempo de uma decisão. Mas, mesmo que você esteja habituado com aquela intercessão, não possui uma quantidade de informações para tomar uma decisão. Se o tempo do amarelo é muito curto, e você entra na “zona de dilema”, uma área que antecede a intercessão, onde você não pode parar em segurança e não pode ultrapassar o cruzamento, antes do sinal se tornar vermelho, sem ter que acelerar”.

Normalmente, e é o caso de nossos ciclos dos semáforos, este espaço tem a dimensão do espaço percorrido durante os três segundos de duração do amarelo, trafegando na velocidade máxima permitida para a via. Sempre achei que o inicio desta “zona de dilema” fosse indicada ao motorista com uma faixa amarela, facilitando a sua decisão face ao dilema que se lhe apresenta esta situação.

Quando li a noticia do fato, motivador deste artigo, contatei a CET-Rio, pela  qual, como seu primeiro presidente, tenho o maior carinho. Recebi a informação, já adiantada pelo Secretário de Transportes, que seria submetido a um exame técnico. Como até agora nada mais se disse, achei por bem, em respeito aos técnicos, “meter minha colher”, tentando lhes esclarecer através deste artigo, o porquê da situação criada. Falaram-me da possibilidade de se aumentar o tempo do amarelo, aumentando consequentemente  a “zona de dilema”. Isto, por favor, nem pensar, tal o prejuízo que traria à mobilidade urbana na área influenciada pela via onde tal prática fosse utilizada.

A solução, se me permitem a colaboração gratuita, é muito simples, como são normalmente as soluções de tráfego. Basta se acrescer aos semáforos ao longo do trajeto dos BRT, a informação do tempo regressivo do sinal verde, que antecede ao amarelo, obrigando, por Ordem de Serviço, que os condutores destes veículos parassem no sinal amarelo, uma vez que a  “zona de dilema” para eles, não é suficiente. O artigo 44 do pouco conhecido Código de Trânsito Brasileiro recomenda que: “Ao se aproximar de qualquer tipo de cruzamento, o condutor deve demonstrar prudência especial, transitando em velocidade moderada, de forma que possa deter o seu veículo com segurança, ao aparecimento de qualquer imprevisto.”

Este item da lei maior do trânsito acaba com o dilema do motorista e dá apoio legal à determinação de parar o seu veículo no aparecimento do sinal amarelo, já do seu conhecimento, pela indicação regressiva do tempo do sinal verde. Para eles, não existe , ou não é válida, a “zona de dilema”, e consequentemente não haverá esta dúvida para os seus condutores.

Pronto, como lhes disse, “é muito simples a solução”, dispensando um demorado exame técnico.

Como diria Sherlock Holmes: “É elementar, meus caros amigos da CET-Rio”.

Tags: aberta, artigo, jb, orani, sociedade

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