Jornal do Brasil

Quinta-feira, 29 de Junho de 2017

País - Sociedade Aberta

Cultivar e guardar a criação

Dom Orani Tempesta

A Quaresma é o tempo que nos encaminha para a Páscoa. A liturgia quaresmal prepara-nos para a celebração do ministério pascal tanto dos catecúmenos, fazendo-os passar por diversos degraus da iniciação cristã, como dos fiéis, que recordam o próprio batismo e fazem penitência. É um tempo em que fazemos caminho para a Páscoa motivados pela Palavra de Deus e unidos aos sentimentos de Jesus Cristo, cultivando a oração, o amor a Deus e a solidariedade fraterna.

A Campanha da Fraternidade, inspirada em outras campanhas internacionais, ocorre durante este tempo como um gesto concreto e social de conversão. A nossa vida quaresmal é de penitência e mudança de mentalidade, comportamento, perdão, reconciliação – enfim, de retorno entusiasta à nossa vida batismal com coerência. Iremos renovar as promessas batismais na Vigília Pascal. Mas a vida do cristão está baseada em uma revelação do Verbo que se encarnou e se fez homem e assumiu nossa vida. Por isso, a vida de conversão do cristão deve também ser sal, luz e fermento em nossa sociedade. Assim sendo, a cada ano a Igreja do Brasil propõe aos católicos um tema social que, por sua vez, a Igreja propõe também à sociedade, pois são temas que interessam a todos.

Neste ano, a CF 2017 se apresenta como um instrumento à disposição das comunidades cristãs e de todas as pessoas de boa vontade para enfrentar, com consciência crítica, o lema: “cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15), com o tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”. Uma pessoa de fé que faz sua caminhada quaresmal rumo à Páscoa, ao tomar consciência da realidade de como são tratados os biomas brasileiros, não poderá ficar indiferente. Como viver e, ao mesmo tempo, saber conviver com a fauna e a flora sabendo que devemos deixar a possibilidade de sobrevivência para a posteridade?

A reflexão sobre os biomas recebe uma rica iluminação da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja. É preciso que a constatação das riquezas e dos desafios ligados ao tema da Campanha da Fraternidade seja levada à ação a partir de uma reflexão serena e profunda dos ensinamentos de nossa tradição cristã.

A partir da fé cristã, é grande a contribuição que pode ser dada às questões da ecologia integral e, em particular, à convivência harmônica com os nossos biomas. Como afirmou o Papa Francisco: “as convicções da fé oferecem aos cristãos – e, em parte, também a outros crentes – motivações importantes para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis” (Laudato Sí, n.64). O Papa enviou uma belíssima mensagem na abertura da Campanha da Fraternidade.

Ela quer ajudar a construir uma cultura de fraternidade, apontando os princípios de justiça, denunciando ameaças e violações da dignidade e dos direitos, abrindo caminhos de solidariedade. A vida fraterna é a síntese do Evangelho quanto às relações humanas, e testemunha a nossa dignidade como verdadeiros filhos e filhas de Deus.

A Campanha da Fraternidade 2017 veio e vem propor uma reflexão acerca da fraternidade em defesa da vida, através de um olhar pautado na luta pela preservação da natureza e da relação entre a sociedade e os biomas brasileiros. Em geral, aceita-se que o País possui seis grandes biomas e que perfaz a maior biodiversidade do planeta. Nesse sentido, a Campanha da Fraternidade veio para suscitar a defesa da vida através da mudança de comportamento do sujeito, pautada em ações de partilha, de igualdade, de equilíbrio; portanto, propõe uma vida fraterna. Cada região do país tem ações concretas a empreender nessa responsabilidade pela nossa “casa comum”. E, para chegarmos a esse status, é necessário desenvolver um novo olhar acerca da relação harmônica entre os povos e os biomas, entre a natureza e a vida, e para isso é importante desenvolver a fraternidade.

No Domingo de Ramos encerramos a Campanha da Fraternidade. O tema continuará motivando os demais temas durante este ano e deverá ser continuado em nossa pastoral da ecologia ou do meio ambiente. Como gesto concreto, também temos a Coleta Nacional da Solidariedade, que deve ser o fruto de nossas penitências quaresmais. Desde a sua criação, em 1998, o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), vem apoiando centenas de projetos sociais que chegam à CNBB vindos de diferentes regiões do país. A iniciativa foi aprovada na 36ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O financiamento dos projetos é feito com o resultado apurado na Coleta Nacional da Solidariedade realizada no Domingo de Ramos. Somente no período de 2010 a 2015, foram atendidos mais de 1.760 projetos. Este ano a Coleta será no próximo domingo, dia 9 de abril, já iniciada nas missas depois do meio dia de 8 de abril, ao iniciarmos a Semana Santa com o Domingo de Ramos.

Essa arrecadação de fundos integra as atividades da Campanha da Fraternidade, com participação efetiva das dioceses, paróquias e comunidades. Do valor total arrecadado nas coletas das missas, 40% são enviados ao Fundo Nacional da Solidariedade, gerido pela CNBB. Os outros 60% atenderão a projetos sociais das (arqui)dioceses, administrados pelos respectivos Fundos Diocesanos de Solidariedade (FDS).

Mesmo com os tempos difíceis de hoje, essa Coleta é um gesto solidário com tantos que necessitam de um trabalho social. Por isso, lembro que essa Coleta deve ser fruto de nossa penitência quaresmal, e recordo novamente que com a Coleta se encerra a Campanha da Fraternidade, mas não o tema. Que possamos refletir sobre ele durante todo este ano e quiçá durante a nossa vida, pois, cuidar do meio ambiente é sinal de amor a Deus e pela criatura.

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Tags: Artigo, JB, Sociedade, aberta, orani

Compartilhe: