Jornal do Brasil

Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

País - Sociedade Aberta

A arte de aporrinhar, faturando mais...

Celso Franco

Como acontece toda semana, desde 1968, sempre procuro escrever comentando alguma notícia da grande mídia, que tenha algo a ver com o trânsito. Nesta semana, estava muito contente de poder comentar a excelente escolha feita pelo secretário de Transportes, Fernando Mac Dowell, para a presidência da CET Rio, do professor Paulo Cesar Ribeiro Martins. A noticia apresenta um resumo das credenciais do engenheiro para o cargo, como sejam a de professor da Coppe, do curso de doutorado, de engenharia de transportes, realizado na University  College of London, além de ressaltar o seu estudo da reformulação das linhas de ônibus, no governo de Luiz Paulo Conde, além de desenvolver o Sistema de Controle de Tráfego por Área,CTA, hoje utilizado pela CET. Faltou, no  entanto, citar o seu curso de aprimoramento em engenharia de tráfego ministrado por ninguém menos do que o extraordinário engenheiro do assunto Professor Gerardo Penna Firme, o “irmão que não tive”, meu diretor de engenharia e, posteriormente, sócio, quando trabalhamos em várias cidades do Brasil, notadamente São Paulo. Completava assim, o engenheiro Paulo Cesar, meu particular amigo, a sua preparação para assumir a responsabilidade que agora lhe confiaram

Ambos, amigos meus de longa data, unidos pelos mesmos ideais, tanto o Secretário de Transportes, como o Presidente de CET, só não tiveram ainda o encargo executivo numa área tão cheia de interesses nem sempre honestos, fato que só se aprende a lidar exercendo a função. Estarei de fora torcendo por eles e, sempre que solicitado, pronto a lhes levar a minha experiência do passado.

Mas, infelizmente, ocorreram dois noticiários que me assustaram. O primeiro, mais fácil de resolver, foi a declaração do novo secretário de Ordem Urbana, de meter a sua “colher”, na melhor das intenções, na fiscalização do trânsito, assunto exclusivo dos órgãos que fazem parte do Sistema Nacional de Trânsito, ao qual esta Secretaria não pertence. Aqui cabe a voz da experiência cinquentenária:

Com o sabem os atuais responsáveis, a política de repressão deve ser orientada pela engenharia, uma vez, que o trânsito organizado é, por mim definido, desde os idos de 1967, como: A engenharia inteligente, resguardada por um policiamento eficiente.

A responsabilidade absoluta é da engenharia baseada nas informações de um sistema eficaz de pesquisa, do que de errado existe na sua área de ação. No meu tempo, apoiava-me na seção de “Pesquisa e divulgação”, dirigida por um engenheiro de extrema competência. Esta seção funcionava como os exames de laboratório funcionam para orientação do diagnóstico do  médico clínico que, em última análise, é o papel do engenheiro de tráfego, uma vez que professa uma ciência que se autodefine como o aproveitamento, ao máximo, da capacidade das vias de tráfego existentes.

O outro motivo de susto, aliás, por mim previsto, ao tomar conhecimento do aumento de mil reais da multa para os punidos pela Lei Seca, acabou de se concretizar e deu origem ao título deste artigo: “A arte de aporrinhar, faturando mais.” Esta decisão não veio acompanhada de nenhuma exposição das razões para tal medida. Agora, nesta semana, anunciam que vão fiscalizar os motoristas durante o dia, aporrinhando o trânsito e os motoristas como já comentei antes.

Não existe nenhum registro de acidente diurno por condutor embriagado, sendo público e notório que todos bebem aos sábados e domingos, nos seus almoços, fora de casa, em restaurantes. É mais uma vez a velha história, respeitem as estatísticas, não queiram aumentar a arrecadação de um Estado falido, aporrinhando uma população já aporrinhada por tudo de errado que estamos vivendo.

Sou talvez dos poucos que combatem a maneira como se verifica o estado de influência do álcool no motorista. A começar pelo exagero da tolerância zero quando os médicos especialistas consideram que até 0,02%,de existência de álcool no sangue, nada acontece. Não respeitam o texto da lei, quando pune a influência do álcool na condução do veículo, se ela não é verificada na abordagem ao suposto infrator. Deveria haver uma exigência de manobra prática, como estacionar numa vaga longitudinal e, aí sim, caso não conseguisse, submetê-lo ao teste do soprar para verificar se o motivo foi a ingestão de álcool ou o estado de nervosismo natural devido à situação. Enfatizando: Não é proibido beber. É proibido dirigir sob a influência  nefasta da ingestão do álcool, em valores acima do estipulado pelos especialistas, não os leigos.

Sei que nada adianta o meu protesto, uma vez que a ordem deve ser de arrecadar. Longe dos administradores ou legisladores do trânsito de pensar em medidas educacionais construtivas e eficazes, em lugar da aplicação da punição pura e simples. As medidas hoje empregadas para educar o faltoso, são um rotundo fracasso, haja vista a última publicidade de prevenção de acidentes, publicada pelo Governo Federal, de um primarismo de fazer chorar. Felizmente reconheceram o erro e a retiraram de circulação. Afinal, errar é humano, persistir no erro é que é burrice.

Até que esta correção ocorra, iremos ver pela TV os resultados de estatística que, como as cartas, não mentem jamais, quanto ao número de acidentes rodoviários, com seu vergonhoso número de óbitos, nos feriados prolongados.

Tags: aberta, Celso, franco, Sociedade, texto

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