Jornal do Brasil

Domingo, 26 de Junho de 2016

País - Sociedade Aberta

Santa Beatriz da Silva nos descortina os valores eternos

Cardeal Orani Tempesta

Os santos e as santas são homens e mulheres que a Igreja coloca como modelos da prática das virtudes cristãs em grau heroico a cada um de nós, a fim de que possamos imitar, com a graça de Deus, o seu modo de ser e agir. Colocando-nos nessa escola de santidade com o coração aberto teremos mais facilidade em tentar construir um mundo melhor, e também chegarmos à glória celeste no fim de nossa peregrinação terrena.

Pois bem, nesse contexto, importa apresentar a vida de Santa Beatriz da Silva, portuguesa do século XV que, após viver na corte real espanhola, fundou, em Toledo, na mesma Espanha, a Ordem das Irmãs Concepcionistas Franciscanas, de clausura, presente em vários estados brasileiros, inclusive em nossa amada Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, no Mosteiro da Ajuda, trabalhando e rezando por toda a humanidade.

Para esse artigo muitos livros e textos foram consultados e utilizados, em especial os da própria Ordem, que divulga sua vida e a obra da fundadora. Neste Ano da Vida Consagrada, que já estamos findando, é um belo exemplo de vida de oração e intercessão.

Beatriz nasceu em Campo Maior, Portugal, no ano de 1426, filha de Rui Gomes da Silva e Isabel de Meneses, ambos muito católicos e parentes da família real portuguesa. Nessas circunstâncias, a menina aprendeu maneiras nobres de ser e, também recebeu boa educação religiosa, rezando desde muito pequena a Ave-Maria, e tendo especial devoção a São Rafael Arcanjo, a quem ela atribuirá muitas graças em seus sessenta e seis anos de vida.

Na casa dos Silva Menezes se respirava a devoção a Nossa Senhora, especialmente sob o título de Imaculada Conceição, que só fora definido solenemente pelo Papa Pio IX em 1854, mas sempre foi objeto de fé entre os fiéis, ainda que sob fortes debates teológicos. Nesse contexto, Dom Rui Gomes da Silva queria um quadro da Imaculada e contratou um pintor italiano para fazê-lo. Como, porém, fosse necessário um modelo de inspiração ao artista, o pai escolheu a linda Beatriz para ficar sentada diante do pintor, mesmo a contragosto da menina, que não se achava digna de “representar” Nossa Senhora. Obedeceu, porém, a ordem do pai com a condição de permanecer, durante todo o tempo, de olhos fechados.

Resultado: tem-se, no quadro, a Virgem de olhos quase fechados, sentada em atitude muito modesta. O véu escorre sobre a cabeça, deixando à vista alguns flocos de cabelo. O manto cai nos ombros, juntando-se com arte sobre os joelhos. No colo, tem o menino Jesus a apoiar a mãozinha esquerda sobre a cabeça de São Francisco de Assis, e a direita a oferecer uma vela a Santo Antônio.

Dos onze filhos do casal, um, João, fez-se frade franciscano tomando o nome de frei Amadeo, enquanto Beatriz também acalentava um sonho secreto de se consagrar a Deus como religiosa, embora nada falasse a ninguém. Daí o pai sonhar fazê-la uma grande dama na Corte Real e garantir-lhe um futuro brilhante, como se garantia a não poucos nobres de então. O sonho de Dom Rui se tornou realidade.

Sim, em pouco tempo a notícia do casamento de Dom João II, rei de Portugal, com Dona Isabel, princesa da Espanha que após o matrimônio se tornaria rainha, agitou as duas nações e especialmente as famílias mais nobres de ambos os países. Uma das escolhidas para ser dama de companhia de Isabel foi a linda Beatriz, de 21 anos, e isso por duas razões: era de inteira confiança da monarca e, também, sua parenta de sangue.

A emoção da jovem com o cortejo nupcial de sua rainha não a levou a parar nas coisas deste mundo, mas, sim, a elevar o pensamento aos bens celestes. Afinal, se uma corte terrena já empolgava a tantos, quanto mais grandiosa, em todos os aspectos, não deveria ser a corte celestial, na qual a própria Mãe de Deus e nossa mãe é a Rainha?

No entanto, o vislumbre natural de Beatriz pelos aposentos palacianos começa a se transformar em pesadelo, dado que uma bela jovem como ela não passaria despercebida de tantos nobres desejosos de se casarem. Um dos mais interessados é Dom Álvaro de Luna, alto ministro do rei, mas ela, de modo muito educado, porém firme, se recusou a atender ao seu importante pedido, assim como fez diante de outros pretendentes que sempre se aproximavam do palácio real para vê-la, deixando, inclusive, a rainha com ciúmes de sua dama. Afinal, ela mesma, a monarca, parecia diminuída.

Beatriz não se chocou com o problema, mas buscou refúgio em um mosteiro de monjas clarissas (filhas espirituais de Santa Clara de Assis) próximo dali e lá passava horas e horas a entreter-se em elevadas conversas com as irmãs, especialmente com a Irmã Gaudência que lhe dava bons conselhos e a levava cada vez mais a aproximar-se da Imaculada Conceição de Maria em meio ao silêncio e à oração.

No palácio, as intrigas contra nossa jovem dama só aumentavam. O ódio da rainha crescia. Chegou-se a duvidar da integridade moral de Beatriz. Ela teria um caso com o próprio rei. A jovem rezava e pedia a Nossa Senhora que intercedesse a Deus para o desaparecimento de sua beleza física. Sem formosura não atrairia ninguém e tudo passaria. Era tarde, porém, a rainha Isabel já armara seu plano vingativo: matar Beatriz sufocada dentro de um baú em um dos labirintos do castelo real.

O ódio da esposa do rei se concretizou e a jovem dama foi atraída para um local subterrâneo, no qual deveria entrar em um baú para procurar algo para sua senhora. Mal entrou e a própria rainha a trancou e desapareceu. No entanto, por uma graça especial ou mesmo por um milagre, nossa jovem não morreu, mas recebeu consolo do céu. Sim, a própria Virgem Maria pareceu desenhar-se à sua frente com um vestido branco, manto azul e véu preto, assim como seria o hábito da Ordem a nascer muitos anos depois.

Seu tio, Dom João de Menezes, saiu com a rainha à procura da sobrinha e foi levado até o baú no qual a monarca pensara ter asfixiado a jovem dama. Eis, porém, que ao abrir a arca, Beatriz estava viva e, às pressas, foi dali retirada pelo tio, ante o olhar pasmo de Isabel, e levada para um local seguro, depois de uma longa fuga pelas estradas espanholas. Partiram do palácio com destino ao mosteiro de São Domingos, das monjas cistercienses, em Toledo, a 250 km da residência real. Era o ano de 1451.

Com as monjas se sente feliz e, embora nunca desejasse ser uma cisterciense (nome proveniente de Cister, região da França em que foi fundada a Ordem no ano de 1098), passou trinta anos na clausura, com um véu cobrindo o rosto. Afinal – pensava nossa santa – aquelas faces que foram causas de tantas discórdias não deveriam ser vistas por mais ninguém. Ela sabia das tramas e até das mortes que ocorriam nos ambientes palacianos, mas nada dizia, apenas rezava e perdoava o que a rainha lhe fez.

Em sua vida recolhida, desejava contentar a Imaculada. Como, no entanto, fazê-lo? Seu raciocínio era o seguinte: “Cristo continua a sua vida [oculta] de Nazaré... agora em todas as partes do mundo, onde houver um tabernáculo acalentado por uma lamparina. Ele procura substitutas de sua Mãe que lhe façam companhia nas mil e uma nazarés do mundo inteiro. – ‘Que haja ‘Marias!’ Pensa Beatriz no seu interior, confiando no surgimento de uma Ordem consagrada à Imaculada” (Afonso de Santa Cruz. O pecado de ser bela. Ed. do Autor, 2008, p. 44-45).

A oração de nossa santa não foi em vão, como nenhuma oração o é. Morto Dom João II, dona Isabel se casou com Dom Fernando de Aragão e se tornou grande defensora da fé, de modo a receber o qualificativo de “Isabel, a católica”. Foi nessa condição que ela visitou a antiga dama a quem, antes, quisera matar, em Toledo, a fim de pedir-lhe perdão e oferecer apoio ao seu projeto de fundar uma nova Ordem Religiosa na Igreja. A rainha pode ver aquele rosto, há tempos escondido, mas a ela desvelado. Não estava envelhecido pelo passar dos anos. Parecia o da mesma jovem que Isabel conhecera há mais de trinta anos.

Frei João de Tolosa, franciscano, passou também nessa época a aconselhar Beatriz, e outras jovens foram surgindo para viverem o mesmo ideal a que ela se propôs: ser para Cristo outra “Maria” que Lhe faça companhia como fez a Sua Mãe em Nazaré, nos seus 30 anos de vida oculta, antes de iniciar seu ministério publicamente. Era o ano de 1484, quando nossa santa deixou o mosteiro cisterciense e se dirigiu, de rosto coberto, para o palácio de Galina, chamado a partir de então de Convento da Santa Fé, perto do Rio Tejo, com suas doze monjas. 

A rainha Isabel se empenhou junto ao Papa para a aprovação da nova fundação. A Ordem foi aprovada, mas a Bula Papal de aprovação se perdeu em um naufrágio. Sem esperanças, só restava às monjas rezarem; e eis que, mais uma vez, vem a divina resposta: alguém entrega na porta do mosteiro um pacote. Ele é levado a um respeitável sacerdote, o Pe. Garcia de Quijada, que o abre e atesta sua autenticidade: é a Bula do Papa aprovando a nova Ordem.

Com a aprovação em mãos, o mesmo Pe. Quijada marcou a vestição das primeiras religiosas para o dia 9 de agosto de 1492, mas Beatriz, redobrando suas preces ante o Sacrário, também “marcou” a sua morte para esse mesmo dia. Se ela foi por muitos anos uma mulher invisível, será também a fundadora invisível. Deixaria a Ordem para que outros a conduzissem.

Realmente, em 9 de agosto, a fundadora das Concepcionistas Franciscanas entregou sua alma cândida a Deus. Antes, o padre que lhe ministrou a Unção dos Enfermos viu em sua testa a marca da Imaculada Conceição, ou seja, uma estrelinha que lembra o Apocalipse ao se referir à mulher que traz uma coroa de doze estrelas (cf. Ap 12,1). Esta estrela é um autêntico fenômeno místico, dado que deixou a marca após a morte, como atestou Dom Gregório Modrego, administrador apostólico de Toledo, na exumação do corpo que fora sepultado no próprio Convento de Santa Fé. 

As monjas, no entanto, com o passar dos tempos, por ordem da rainha Isabel, que recebera do Papa Alexandre VI a licença para reformar as Ordens religiosas da Espanha – como permitia a Lei do Padroado com a Igreja unida ao Estado – fez com que as filhas de Beatriz da Silva, passando por graves dificuldades de identidade, deixassem o carisma cisterciense e adotassem o espírito de vida franciscano vivido até hoje em todo mundo, desde que por ele se espalharam a partir de 1507. A fundadora foi canonizada pelo Papa Paulo VI em 3 de outubro de 1976.

Sobre a razão de tantas jovens deixarem tudo ao longo dos tempos, inclusive no Brasil, para levar uma vida santa na clausura como monjas concepcionistas, chamadas de “estrelas da Imaculada”, escreve, de modo muito realista, o Pe. Afonso de Santa Cruz: “As estrelas da Imaculada fazem penitência, mas com as cores brancas da alegria. São pobres com a riqueza da Imaculada. São obedientes em sintonia com a vontade de Deus. As vocações que brotam sob o manto da Imaculada não são frutos de fuga ou decepções, mas de fascínios e atrações. A multiplicação das estrelas da Imaculada não está baseada num engodo psicológico ou enredo técnico, mas na simplicidade contagiante da Imaculada, que atrai uma por uma de suas estrelas” (idem, p. 89-90).

Queiramos, pois, neste tempo em que estamos, jubilosos, terminando o Ano da Vida Consagrada convocado pelo Papa Francisco, louvar a Deus pelas mãos benditas de Nossa Senhora, pela existência dessas mulheres que, semelhantes a Maria, acompanham o Senhor Jesus nos nossos dias adorando-O, louvando-O e bendizendo-O em lugar de tantos que não O adoram, não O louvam e não O bendizem. 

Possa o exemplo silencioso e escondido de Santa Beatriz da Silva e de suas filhas espirituais descortinar-nos os valores eternos e suscitar muitas em santas vocações no meio das concepcionistas, também entre nós no Brasil, particularmente em nossa Igreja Metropolitana. 

Santa Beatriz da Silva rogai por nós!

* Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist. Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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