Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

A covardia dos que amavam Bernardo

Breno Rosostolato e Aspásia Basile Sula*

Ao longo dos tempos, as crianças foram consideradas como seres de menor importância. Até o século 19 a criança era vista como um estorvo inútil, porque nada produzia. Com a Revolução Industrial passou a ser “valorizada”, pois deveria sobreviver para se tornar um adulto produtivo.

Os castigos físicos como método pedagógico e educacional perduraram desde os primórdios da civilização e foram defendidos até por filósofos da grandeza de Santo Agostinho, que justificava: "Como retificamos a árvore nova com uma estaca que opõe sua força à força contrária da planta, a correção e a bondade humanas são apenas o resultado de uma oposição de forças, isto é, de uma violência”.

O infanticídio, termo popularesco que designa a sumária execução de crianças não desejadas pela família, era uma prática comum no Império Romano e em algumas tribos bárbaras. Até os dias de hoje, em algumas etnias, centenas de crianças são enterradas vivas, sufocadas com folhas, envenenadas ou abandonadas para morrer.Esses assassinatos são, muitas vezes, fruto de aspectos culturais colocados acima do bem-estar e da vida, condenando as crianças à morte, em nome de crenças e tradições imutáveis.

A falta de informação e de políticas públicas de saúde e educação, além do isolamento social de muitos desses grupos, favorece tais práticas, que são perpetuadas na história como procedimentos comuns e naturais. Mortes que se estabelecem como verdadeiros processos seletivos, conceito fundamentado numa espécie de eugenia social e que determina quem está apto, adaptado ou não, para viver na comunidade. Mas o infaticídio não é uma exclusividade de algumas etnias. Os chamados “civilizados” também matam crianças. Matam crianças para roubar. Matam crianças para se vingarem. Matam crianças em guerras para aniquilar o futuro de uma nação.

Cotidianamente, ouvimos notícias sobre os maus-tratos infantis que podem vir travestidos de várias formas: negligência, mau trato psicológico, abuso físico, abuso sexual. Em todas elas, o que prevalece é sempre o poder do mais forte contra o mais fraco.

Leis, normas e resoluções são aprovadas na tentativa de obrigar os adultos a respeitarem as crianças. Infelizmente, os maus-tratos começam e se perpetuam, na maioria das vezes, dentro das relações familiares. Aí o problema toma dimensões perigosas: o lar, espaço considerado sagrado e indevassável, passa a ser palco de horrores onde amigos, parentes e vizinhos não se sentem no direito de invadir.

Gritos, choro, marcas pelo corpo. Tudo é percebido por alguém do lado de fora. Tudo é comentado à boca pequena. Até que, um dia, a criança sofrida, espancada, estuprada não resiste e... morre.

Ah! Quantas testemunhas dos abusos surgem nesse momento! Vizinhos juram que ouviam a criança chorar. Professores afirmam que a criança tinha o corpo coberto por manchas roxas. Familiares, aos prantos, lembram que sempre desconfiaram que a criança fosse maltratada.

Por algum motivo aprendemos que não se deve “meter o nariz” na vida dos outros, e essa danosa hipocrisia, como um véu, recobre os atos de violência contra a criança. E, com essa mania de não interferir na vida alheia, nos tornamos covardes anônimos que dão aval a outros covardes.

Bernardo Boldrini foi visto pela última vez em 4 de abril, e seu corpo foi encontrado no dia 14 do mesmo mês. As investigações revelaram que o menino morreu em consequência da superdosagem de um sedativo e depois enterrado em uma cova rasa. O pai, que em um vídeo aparece dopando o filho, e a madrasta, que em um áudio aparece ameaçando Bernardo de morte, foram indiciados no crime de homicídio doloso e ocultação de cadáver.  Eles tiveram a ajuda de outras duas pessoas.

Nesse ciclo vicioso de poder, subjugo, mau trato e omissão, vítimas como o menino Bernardo sofrem, nos poucos anos de suas vidas, a mais cruel das torturas: verem seus corpos machucados e suas almas estraçalhadas por aqueles a quem seus frágeis corações amavam e em quem confiavam.

Proteger uma criança é meu dever. É seu dever. Deixe a educação de lado. Meta-se na vida do outro! Denuncie. Critique. Mostre-se. Salve uma criança.

 

* Breno Rosostolato, psicólogo, e Aspásia Basile Sula, mestre em enfermagem pediátrica, são professores da Faculdade Santa Marcelina.

Tags: aberta, aspasia, breno, coluna, Sociedade

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