Jornal do Brasil

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

País - Sociedade Aberta

O sonho de ser mãe mais próximo das mulheres

Luiz Fernando Dale*

Engravidar naturalmente é uma situação que a maioria das mulheres espera na vida. Nascer, crescer, casar, ter filhos e viver feliz para sempre. Nestes anos de clinica, posso afirmar que, apesar de todas as mudanças em nossa sociedade e na área médica, a motivação que move essas mulheres continua sendo uma só: a vontade de construir uma família. Independe se é um casal homoafetivo, se mulheres casadas ou solteiras. O amor ainda é o que move essas pessoas. E é esse sentimento que faz com que se submetam a tratamentos e muitas vezes  a meses de espera.

Os avanços na área da reprodução humana estão ajudando várias mulheres a realizarem o sonho de ter filhos. Uma paciente me colocou a seguinte frase que representa bastante um tratamento de fertilidade: começa na primeira injeção e termina com o nascimento. Tudo que acontece neste meio faz parte de um tratamento. Resultados negativos, tentativas, perdas, insucessos, tudo faz parte... mas para uma maioria sempre termina com o nascimento.

Fertilidade é uma palavra que demonstra a capacidade NATURAL do ser humano de se reproduzir. Desde cedo somos imersos no princípio de que chegará a hora do “casamento”, união e reprodução, A menina inicia suas brincadeiras com bonecas (que representam filhos) e os meninos com carros, lutas, bravatas etc, demonstrando o macho, chefe da família, protetor.

Após a estabilidade da união, quase todos pensam em se reproduzir. A expectativa universal é que a gravidez virá já no primeiro mês de tentativas. Pequenas decepções vão aparecer, se juntar mês a mês, a cada menstruação. A mulher que fisicamente passa pelo sangramento, experimenta no corpo a negativa, sofre com ela, física e emocionalmente. O homem participativo contempla e se esforça para ajudar, procura minimizar o fato, mas na realidade não sente no físico a falha da natureza.

A média conceptiva das espécies animais é diferente de uma para outra. O ser humano em geral, tem uma chance natural de 25 a 30% a cada ciclo menstrual. Seria possível que alguns casais sejam mais férteis do que outros? Acreditamos que não, a chance de um em cada quatro, engravidar a cada ciclo, mostra o quão aleatória é a concepção.

Porém, a opção hoje por uma gravidez tardia faz com que muitas mulheres enfrentem o problema da infertilidade. Dados do IBGE apontam para um crescimento do número de mulheres que decidiram engravidar mais tarde, após os 30 anos. Tivemos uma procura aumentada em 35% de casais que possuem idade acima dos 35 anos. Com o passar dos anos, a mulher pode enfrentar algumas dificuldades para engravidar. A primeira seria a diminuição da quantidade e qualidade dos óvulos, que compromete a fecundação ou a manutenção da gravidez. A outra seria que a incidência de problemas, como infecção, endometriose, alterações hormonais cresce com a idade. Os cuidados com uma gravidez tardia são os mesmos de qualquer gravidez. Não há diferenças básicas. Apenas é importante o alerta para a incidência de má formação fetal. Para isso, é importante que sejam realizados exames para um estudo genético do bebê, pela amniocentese. Para evitar esses problemas, muitas mulheres estão optando pelo congelamento de seus óvulos. A procura vem aumentando em media 30%. Já temos em nossa clinica casos de mulheres que passaram pelo procedimento e que hoje são mães.

O desejo de ser mãe é algo tão forte que nem as barreiras impostas pela natureza, ou pelos tratamentos, esmorecem a força que estas mulheres empregam para chegar ao seu objetivo. Momentos de tristeza, decepção e impotência são vividos por todos indistintamente, e também por nós, médicos, que lidamos no dia dia com a medicina  voltada para procriação. O segredo do profissional diante disto é procurar assegurar ao casal as possibilidades reais que cada um pode ter com verdade e acolhimento.

* Fernando Dale, médico, é especialista em reprodução humana e membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana.

Tags: aberta, coluna, dale, fernando, Sociedade

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