Jornal do Brasil

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

O problema tecnológico

Tarcisio Padilha Junior*

Quanto mais uma empresa aumenta em porte e poder, mais ela perde em especificidade e ganha em generalidade. Ao formular um projeto de elevado grau de generalidade, uma empresa se põe problema tecnológico cuja solução não existe necessariamente no momento em que o projeto é formulado.

O problema tecnológico propriamente dito consiste em obter o efeito desejado com o máximo de eficácia. Trata-se essencialmente de intervir no curso das coisas, seja para impedir certos estados de se reproduzirem, seja, bem ao contrário, para fazer reaparecem estados que não apareceriam espontaneamente.

Fixam-se previamente objetivos e ordenam-se meios disponíveis relativamente a objetivos fixados. Na medida em que as práticas apoiadas na tecnologia ou por ela inspiradas se deixam modelar segundo a lógica funcional, o desenvolvimento tecnológico é tentado a tomar-se por seu próprio fim.

Se a tecnologia implica no aparecimento de novos problemas, sobretudo suscita novos valores. O que caracteriza a interação entre a tecnologia e a instância econômica é que a utilização da tecnologia no nível da produção torna-se menos dependente de circunstâncias acidentais e mais sistemática, concertada, regular e independente dos caracteres particulares dos indivíduos, seus agentes.

A aplicação da tecnologia tem caráter racional: constitui o objeto de planos estabelecidos de modo crítico, controlados ao mesmo tempo pela análise conceitual e pela experiência. A lógica da industrialização vai no sentido de uma grande concentração dos meios e das decisões, possibilita uma generalização do esquema tecnológico: há estados que se deseja produzir e outros que se deseja evitar, e determina-se racionalmente o meio mais adequado para se obter os efeitos desejados.

O essencial é que se produzem transformações almejadas conforme disposição racional dos meios. A atividade econômica ordena-se em função, não de uma ocorrência inevitável dos fenômenos mas de um projeto geral que comanda objetivos, fixa prioridades, critérios de escolha, normas de performance.

Em verdade, a tecnologia faz aparecer situações novas que exigem um esforço específico de criação ética, não somente no nível das decisões concretas que devem ser tomadas no decurso da ação mas no nível mesmo dos princípios à luz dos quais podem efetivamente ser tomadas decisões.

 

* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.

Tags: aberta, coluna, Padilha, Sociedade, tarcisio

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.