Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Caos na mobilidade urbana mantém altos níveis de incidência de doenças

Celso Ferreira Ramos Filho *

Aceita mesmo por revistas científicas renomadas e sérias, como a britânica Lancet, uma lenda urbana afirma que, no final dos anos 60, o Cirurgião-Geral do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos teria declarado que, depois do advento de antibióticos e vacinas, as doenças infecciosas tinham sido vencidas, e era chegada “a hora de fechar o livro” das mesmas. Embora William H. Stewart nunca tenha pronunciado aquelas palavras, o sentimento de que doenças infecciosas são coisas do passado é pervasivo na sociedade, e o aparecimento de “novas” doenças - ou o reaparecimento de algumas outras – põe em xeque a confiança da sociedade nos avanços sanitários obtidos desde o início do Século XX. Ainda nos espantamos com a ocorrência da infecção pelo HIV, achamos um total absurdo sermos periodicamente atingidos por visitações (um termo antigo para epidemias) de dengue, e nos assustamos com a atual epidemia de doença pelo vírus Ebola na África Ocidental. Na verdade, embora a varíola (e só ela) tenha sido erradicada, e doenças como o sarampo tenham sido controladas pela vacinação, a poliomielite – terror dos pais nos anos 50 – acaba de ressurgir na África e na Ásia, levando a OMS a declarar esta ressurgência como um evento sanitário de interesse mundial, segundo o Regulamento Sanitário Internacional (RSI). Junto com a pandemia de gripe pelo H1N1 e a atual ocorrência de Ebola, três eventos sanitários de interesse internacional foram declarados pela agência, desde a entrada em vigor do RSI, em 2005.

Apesar dos inegáveis avanços no combate a doenças infecciosas, epidêmicas ou não, estamos longe de uma vacina contra o HIV, não chegamos perto de uma imunização eficaz contra a malária, bactérias resistentes a quase todos os antibióticos conhecidos se aproximam e se espalham pelos hospitais, e a tuberculose continua conosco, sendo ainda uma preocupação mundial e nacional, particularmente no Rio de Janeiro. São múltiplas e variadas as razões para isto, e discuti-las todas está acima de nossas limitações de espaço e de paciência do leitor, mas duas delas podem ser brevemente examinadas.

O volume de tráfego de pessoas e mercadorias é uma, acoplado à rapidez dos deslocamentos, particularmente aéreos. Assim, uma pessoa pode embarcar em um avião durante o período de incubação de uma doença (possivelmente já em condições de transmitir o agente infeccioso envolvido), e vir a desenvolver a doença quando em seu local de destino. Este, por exemplo, é o mecanismo de disseminação do vírus Chikungunya, desconhecido nas Américas até dezembro de 2013, porém com mais de 500 mil casos registrados de então até o começo de agosto nas Antilhas, na América Central e nos países caribenhos da América do Sul, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde. Por sua vez, o transporte de carga facilita a introdução de vetores, como os mosquitos Aedes, e o de agentes infecciosos, principalmente através de alimentos industrializados ou in natura, como na ocorrência na Europa, em 2011,de uma grave doença causada pela bactéria Escherichia coli. Os surtos foram associados ao consumo de saladas contendo brotos de feno grego, cultivados na Europa, mas a partir de sementes importadas do Egito, onde provavelmente ocorreu a contaminação inicial. Para 2014, a IATA prevê que 3,3 bilhões de pessoas (número quase equivalente à metade da população mundial) e 50 milhões de toneladas de carga serão transportadas no mundo, através de 50 mil rotas aéreas, em intervalos de tempo relativamente curtos, numa demonstração da magnitude potencial do problema. 

Outro mecanismo é configurado pelo tripé urbanização, promiscuidade e violência. A presença do homem em aglomerações urbanas vem se associando a epidemias desde o Século XIV, quando a peste bubônica matou entre metade e um terço da população da Europa medieval. Associada a condições sócio-habitacionais promotoras de promiscuidade, a urbanização trouxe consigo um grande aumento na incidência de tuberculose, difteria, cólera e febre tifoide, entre outras doenças, durante a Revolução Industrial e o primeiro terço do Século XX. A violência em nível vicinal dificulta medidas de controle de epidemias, como ocorre atualmente em relação ao Ebola e, em escala militar, pela desorganização civil decorrente, promove a disseminação regional ou global de doenças, como o dengue, na Ásia, durante a Segunda Guerra Mundial, e o HIV, no Sul da África, durante as lutas contra o apartheid. Infecções cujos agentes são transmitidos de pessoa a pessoa são mais facilmente transmitidas se estas estão aglomeradas, quando são maiores as oportunidades de passagem de germes de um hospedeiro a outro. É o caso da meningite meningocócica, da catapora, da coqueluche, da gripe e de tantas mais.

A importância dos meios de transporte neste cenário não se limita ao transporte aéreo, por mais impressionantes que sejam os números recém citados. Em um avião há pouca trânsito de pessoas, o ar circulante passa por filtros especiais, e a duração da exposição é relativamente curta. Os repetidos surtos de diarreia por norovírus em cruzeiros marítimos de recreio mostram o risco de grandes aglomerações em espaço restrito, com alta circulação de pessoas e incontáveis oportunidades de contato interpessoal na duração da viagem, apesar dos esforços feitos pelas companhias de navegação para a obtenção de condições sanitárias adequadas a bordo de seus navios.

O caos da mobilidade urbana no Rio de Janeiro e no Brasil, com ônibus, trens, metrôs, vans e moto-táxis transportando corpos em contato constante, com pouca circulação de ar, ou com sistemas sem qualidade sanitária, através de longas viagens por vias congestionadas e insuficientes, por vezes depois de demoradas esperas em terminais superlotados terá certamente o seu papel na manutenção de altos níveis de incidência de doenças como a tuberculose, entre nós. A solução deste problema vai além e adiante do ramerrão eleitoral de educação-saúde-e-habitação, ocamente repetido há décadas por candidatos de todas as colorações políticas. Mais que uma questão de saúde, é um conjunto de problemas de infraestrutura, e um repetido, contumaz e descurado desrespeito aos direitos humanos da população.

* Celso Ferreira Ramos Filho. Membro Titular da Academia Nacional de Medicina, Professor de Doenças Infecciosas e Parasitárias, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Medicina Souza Marques

Tags: aberta, Artigo, coluna, Sociedade, texto

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