Jornal do Brasil

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Bancada He-Man

Luiz Carlos Motta*

Os trabalhadores brasileiros precisam demonstrar seu poder de fogo para conquistar mais qualidade de vida e melhores condições para trabalhar. Foi muito feliz a comparação que o ministro Antonio José de Barros Levenhagen, presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), fez recentemente durante o VII Congresso de Advogados de Entidades Sindicais Comerciárias, no Centro de Lazer da Fecomerciários, na Praia Grande, São Paulo. Ele disse que, durante as negociações, os trabalhadores precisam fazer como o personagem He-Man: levantar o braço como se fosse uma espada e dizer “Eu tenho a força!”. A fala do mais alto representante de uma corte do trabalho no Brasil motivou os mais de 500 dirigentes sindicais e advogados de sindicatos presentes a acreditar que realmente podem avançar em suas pautas de reivindicações se juntarem suas forças antes e durante uma negociação, palavra-chave de seu pronunciamento. Como resposta, todos o aplaudiram de pé.

A Câmara dos Deputados é um ótimo indicador do enorme espaço que os trabalhadores têm para ocupar. Recentemente, um diretor do Departamento Intersindical de Assuntos Parlamentares disse, durante uma reunião com jornalistas que trabalham para sindicatos, que em recente levantamento constatou-se que a bancada de sindicalistas hoje é composta por apenas 91 deputados. Entre eles estão representantes de entidades patronais e profissionais liberais, como médicos, enquanto a bancada empresarial é bem mais forte, quase três vezes maior, com 273 deputados.

Categorias como metalúrgicos, professores e bancários têm seus representantes no Congresso. Os comerciários, no entanto, que são em número de 12 milhões em todo o Brasil, sendo 2 milhões e 700 mil só no estado de São Paulo, se ressentem por não terem pelo menos um representante genuíno naquela casa de leis, mesmo sendo a maior categoria de trabalhadores do país. A boa notícia é que durante minhas viagens pelo interior venho observando que a categoria comerciária está começando a tomar consciência política e percebendo que é por meio de ações participativas que as conquistas acontecem.

Como líder sindical (licenciado), tenho defendido maior representação dos trabalhadores não só no Congresso Nacional mas também nas assembleias legislativas estaduais e nas câmaras de vereadores por esse Brasil afora. É preciso eleger mais representantes em busca de um equilíbrio de forças no Parlamento, porque há uma regra muito clara que muita gente conhece: na política não existe espaço vago — se você não se posiciona, outros vêm e tomam o lugar. É o que vem acontecendo nas últimas eleições, nas quais um número expressivo de eleitores sequer vota para deputados federais e estaduais. Deixam os espaços em branco. Outros não lembram mais em quem votaram e, portanto, não podem cobrar as promessas feitas. Assim, muitos projetos de interesse da classe trabalhadora já são vetados no nascedouro, nas comissões temáticas, e sequer chegam a plenário para votação. Outros projetos prejudiciais à economia do país surgem da noite para o dia e, se não alertarmos nossos representantes no Parlamento, acabam sendo aprovados a toque de caixa.  

Tenho sentido na pele o quão difícil é contar com um número limitado de parlamentares que abracem as causas de grandes categorias profissionais como os comerciários. Nos últimos anos, tenho observado essa dificuldade por conta dos inúmeros projetos de lei que defendemos no Congresso, sendo o principal deles a Regulamentação da Profissão de Comerciário, finalmente sancionada pela presidente Dilma Rousseff depois de muitas lutas, em março deste ano. Mas há muitos outros projetos de lei que precisam ser aprovados, como a redução da jornada de trabalho sem redução de salários, erradicação do trabalho escravo e do trabalho infantil, não à ampliação da terceirização da mão de obra, fim do Fator Previdenciário e redução da carga de impostos, entre tantos outros.

Essa luta pode ser ampliada com a conscientização do eleitor nas próximas eleições. Sugiro que todos anotem o nome do candidato, guardem suas propostas e passem a fazer cobranças já desde o início do mandato. Um Parlamento com qualidade começa com voto de qualidade. A mudança começa por você. Ainda mais agora que ficou mais fácil acompanhar o desempenho dos políticos. As redes sociais são as nossas maiores aliadas. Antigamente, os canais de comunicação tinham mão única, ou seja, o político falava e o eleitor ouvia, com poucas chances de se manifestar. Agora não, os canais são de duas vias, e todos ficam sabendo de tudo e de todos em tempo real. Não devemos ter vergonha de votar em candidatos trabalhadores, porque, se nós não defendermos nossas causas, ninguém fará isso por nós. É preciso lembrar todo dia que, como diz o presidente do TST, cada um de nós pode ser um He-Man.

* Luiz Carlos Motta é presidente licenciado da Fecomerciários de São Paulo e da UGT São Paulo

Tags: aberta, Carlos, coluna, motta, Sociedade

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