Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

PM no olho do furacão

Marcos Espínola*

A situação da segurança pública é cada vez mais delicada. No Rio, as unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) surgiram como luz no fim do túnel, se consolidaram, trouxeram benefícios, mas sozinhas não serão capazes de mudar a realidade. A tão sonhada paz requer muito mais empenho e inteligência. Enquanto isso não acontecer, os policiais militares continuarão no meio de um furacão de denúncias, revoltas, questionamentos e até da condenação antecipada de toda a sociedade. Um ciclo vicioso sem fim.

Ganhamos sobrevida com as UPPs, e o sentimento foi de que as mudanças estavam acontecendo. Mas não é bem assim. Com o tempo ficou clara a necessidade de um momento pós-implantação, ou seja, a continuidade do projeto com outros serviços sociais. A simples permanência dos PMs na comunidade é pouco, pois isso significa só uma parcela do poder público. Esse mesmo indivíduo que recuperou sua cidadania e seu direito de ir e vir, entre outras coisas, quer também (e tem esse direito) suas garantias constitucionais, como acesso a boa educação, saúde de qualidade, transporte eficiente, saneamento básico etc.

Quando isso não acontece, a cidadania fica comprometida em sua essência. A população se revolta contra os próprios policiais que antes lhe pareciam salvadores, mas que, hoje, representam o Estado que continua descuidado nas ofertas dos serviços básicos e de suma importância para o desenvolvimento de qualquer sociedade.

Em muitos casos o policial é insultado por moradores que, por sua vez, são pressionados pelos criminosos que ainda atuam de forma explícita mesmo nas comunidades pacificadas. Em virtude disso, são registrados vários episódios envolvendo o policial militar e a comunidade. Uma guerra declarada.

Isso não é justificativa para nada. Seja quem for que cometa um crime deve responder pelo seu ato. Porém, a reflexão que merece a atenção da sociedade é sobre em qual proporção tais comunidades vivem. Grau de insatisfação, revolta e indignação por parte dos moradores. E do outro lado, os PMs que têm de cumprir o trabalho sob olhares desconfiados e indignados, numa vida de permanente tensão.

Enquanto não entendermos que é preciso uma visão generosa das autoridades na entrega dos serviços, essencialmente investindo na educação, ficará difícil eliminarmos esse furacão de contradições e acusações entre povo e poder público, cujo policial, que também é um cidadão, nesses casos fica no meio, também como vítima.

 

*Marcos Espínola é advogado criminalista.

 

Tags: aberta, coluna, espínola, marcos, Sociedade

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