Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Escolhas e consequências 

Gilberto Heinzelmann*

"Todos vêm ao mundo com duas coisas: tempo e talento. O que fazemos com elas define quem nós somos". Acredito no fato de sermos fruto do meio onde crescemos e, principalmente, das escolhas que fazemos ao longo de nossa jornada. Refletir amplamente sobre essas duas coisas pode nos ajudar em nossas decisões, bem como na forma como educamos nossos filhos.

O calendário escolar no Brasil coloca as crianças em sala de aula durante 200 dias por ano. Em países como Coreia do Sul e Japão, o número chega a aproximadamente 240 dias. Como nossos estudantes se posicionam em 58, entre 65 países avaliados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, essas longas férias poderiam muito bem ser usadas como uma das ferramentas de melhoria de nossa educação. A questão é relevante também sob outro aspecto. Seria uma ótima maneira para, desde cedo, desenvolvermos uma cultura na qual o trabalho e o esforço sejam percebidos como algo que nos dignifica como seres humanos.

Acabo de ler a declaração do líder de um movimento, que infelizmente exemplifica o pensamento oposto: "Não dá para se contentar em ser assalariado. Só salário não serve para nada".

Tenho certeza de que o cidadão que fez a declaração não se referia ao espírito empreendedor de seu grupo. Trata-se apenas da lei do menor esforço, cujo objetivo, nesse caso, é buscar nas facilidades do governo e na invasão da propriedade privada aquilo que julgam, pelo argumento da redistribuição de renda, ser seu de direito. Esse é o modelo mental que leva uma nova geração de brasileiros a focar em valores errados, que certamente não trarão a transformação de que precisamos e merecemos no Brasil.

Para aqueles que optam por se juntar ao mercado de trabalho formal, as comparações relativas com o Brasil são bastante favoráveis no que se refere à qualidade de vida, e nem tanto quando o foco é nossa competitividade no mercado internacional. Exemplos próximos, como México e Estados Unidos, concedem, em média, respectivamente, seis e dez dias de férias ao final do primeiro ano de trabalho de um colaborador na empresa. Com essa comparação, os assalariados nada têm a reclamar, uma vez que a legislação brasileira assegura 30 dias de férias anualmente, independentemente da contribuição do indivíduo ter sido de um ou 30 anos de trabalho.

Pessoas que se preparam para o mercado de trabalho também se defrontam com escolhas e renúncias. Cada vez mais uma boa oportunidade de início de carreira exige uma adequada formação acadêmica e profissionalizante. Uma vez empregados, temos de continuar apostando em nossa qualificação e autodesenvolvimento, momento em que outras questões surgem. Uma delas diz respeito à parcela de tempo que dedicamos a nossas carreiras, em comparação ao lazer e às nossas famílias.

Nesse quesito, não existem respostas certas ou erradas. O que temos de definir são prioridades, opções e soluções que devem ser coerentes com aquilo que, para nós e para aqueles que nos cercam, faz mais sentido. Novamente, surge a questão das escolhas. Nossos amigos, esposa ou marido têm uma grande influência nos sonhos e paixões que perseguimos e alcançamos.

Por fim, alguns fatores que definem nosso meio estão no âmbito da sociedade e, portanto, um pouco mais longe de nosso controle e influência imediata. Um microempresário amigo, ao entrevistar um candidato, ouviu a seguinte proposta: "Não quero a carteira assinada neste momento, para não perder os benefícios que tenho do governo". A essa situação de ilegalidade e assistencialismo juntam-se tantos outros casos de corrupção que impactam em nossas decisões do dia a dia. Essa é uma batalha mais longa e difícil. Porém, se a mudança começar por nós, e se soubermos escolher nas urnas nossos representantes com base em sua competência e ética, deixaremos um país melhor para nossos filhos e netos.

 

*Gilberto Heinzelmann é presidente da ZEN S/A, um dos maiores fabricantes de componentes automotivos e maior fabricante independente mundial de Impulsores de Partida,  

Tags: aberta, coluna, gilberto, heinzelmann, Sociedade

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