Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

A mentira infantil

Até que ponto é normal falar mentiras na infância

Andreia Calçada*

Os pais se preocupam quando percebem que os filhos começam a inventar histórias e mentiras acerca da ocorrência de situações que nitidamente soam como falsas.  Imediatamente, um questionamento pessoal se inicia acerca da existência de alguma falha na educação dada à criança.  Alguns mais desinformados se insuflam com raiva da criança tomando atitudes que muitas vezes mais prejudicam que ajudam e resolvem o problema. Veremos adiante algumas definições, bem como entendimento que objetiva ajudar pais e educadores a lidar com a mentira na Infância. 

Segundo Broyer (1975), “a mentira é essencialmente uma afirmação contrária à realidade dita por um indivíduo a outro com a finalidade de o induzir em erro. A mentira faz parte do cotidiano, e torna-se importante a atenção a sinais que podem ajudar a detectá-la como sinais não verbais, inconsistências e sinais faciais. A mentira é sem dúvida o ato de falsear a realidade, e nasce muitas vezes do isolamento intelectual ou afetivo da pessoa que mente, que por vezes se fecha no seu mundo porque se considera incompreendida pelos outros. A ausência ou dificuldade na expressão de afetos no meio familiar é, em muitos casos, causa da mentira que pode se tornar patológica.  

A rigidez e punição excessiva bem como a falta de limites podem gerar aquilo que se torna um problema. Especificamente no caso da criança, os pais e educadores precisam ter cautela na forma de abordar a mentira. A criança entre três e seis anos normalmente apresenta muitas fantasias nas quais ela realmente acredita. Ela pode realmente acreditar que é a Cinderela e que seu príncipe encantado lhe deu um presente e veio conversar com ela. Mas ela pode começar a usar isto para justificar os objetos que traz da escola que são de outras crianças. A isto os pais precisam estar atentos. 

A partir dos cinco/seis anos de idade a mentira frequente bem como a fantasia excessiva podem ser indicadores de que algo não vai bem e que seu filho ou aluno pode estar precisando de ajuda, antes que a mentira se torne compulsiva. A mentira eventual também deve ser olhada com cuidado, pois se for estimulada pode também virar um hábito que gera problemas.  Cabe aos pais ensinar o certo e errado, e mostrar as consequências decorrentes da mentira. Precisamos entender que as crianças mentem por diversas causas segundo Durandin in Broyer (1975): por brincadeira, para fazer mal a alguém, para evitar desgostos, para proteger um grupo, por interesses, para não se sentir inferior, pelo prazer de enganar alguém, por timidez, para evitar punições e enfim para ser acreditada. 

É importante que pais e educadores desde cedo estimulem uma interação transparente e verdadeira com as crianças, o velho olhar “olho no olho”, que desenvolvam a percepção dos sinais da mentira, a busca do entendimento sobre a função da mentira para aquela criança em determinado momento e principalmente se a mentira se torna hábito. A postura dos próprios pais e da família frente à mentira também deve ser avaliada. Enfim, conheça a seu filho, conheça a si mesmo. Estas posturas são fundamentais na prevenção do que pode vir a tornar-se a mentira patológica. 

* Andreia Calçada, psicóloga e psicoterapeuta (com formação em gestalt, psicoterapia breve, Terapia Cognitivo Comportamental, Hipnose Ericksoniana), é pós-graduada em psicopedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, além de psicoterapeuta com treinamento em atendimento e avaliação psicológica de crianças pelo West Coast Institute for Gestalt Play Therapy 2009-2010-2012.  

Tags: aberta, andréia, calçada, coluna, Sociedade

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