Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Paraty é uma festa 

Wander Lourenço*

Ao vasculhar a memória em busca de um título para a crônica que sintetizasse as observações sobre a Flip-2014, em homenagem ao jornalista, artista plástico, tradutor e escritor Millôr Fernandes, deparei-me com a antológica frase proferida pelo ficcionista Ernest Hemingway, na década de 20: “Paris é uma festa”. De posse do título, creio que já posso tecer alguns comentários sobre o maior evento literário do país, a partir da visão de um espectador que todos os anos se propõe equilibrar-se por sobre as ruas de pedra da cidade histórica.

O primeiro momento da Flip digno de elogio público foi a decisão de apresentar o espetáculo musical de abertura gratuitamente, de modo a democratizar o evento aos moradores e visitantes. Como se não bastasse a louvável resolução da comissão organizadora, os frequentadores, os que se dispuseram a chegar a Paraty numa quarta-feira fora do calendário de férias, presenciaram a suntuosa performance de uma rejuvenescida Gal Costa, em seu esplendor de beleza (nitidamente mais jovial e emagrecida), sem contar o pleno domínio da arte de interpretação. Tal apresentação digna de nota, decerto, fez com que admiradores ressuscitassem uma espécie de antigo refrão proferido por gerações e gerações: “Gal é a maior cantora do Brasil!...” Confesso que não posso encerrar o parágrafo sem registrar o talento Pedro Baby, apto a honrar o sangue paterno com a sua magistral guitarra.

Quanto à programação literária... Bem, a programação da Flip não foi exatamente literária, uma vez que Millôr Fernandes – o autor consegue a inédita façanha de ser considerado um gênio da literatura, sem ter escrito sequer um livro de vulto... Mistérios de uma nação sobre a qual Tom Jobim dizia não ser para principiantes. Entretanto, a crítica sobre a ausência de autores cuja importância já abrilhantaram com mais fulgor o encontro literário poderia ser ainda maior não fossem duas ou três mesas-redondas – a contabilizar a hilária entrevista do mestre Jaguar com suas reminiscências sobre o Mago do Méier –, que não trataram especificamente de literatura.

Em verdade, o debate mais emocionante foi, sem dúvida, o protagonizado por Marcelo Rubens Paiva, autor de inclinação menor afeita ao biográfico, mas que levou o público às lágrimas, além de ele próprio, ao relatar os malabarismos dos seus familiares obrigados a lidar com a ausência forçada de um sequestrado da ditadura militar. A outra mesa de valor foi capitaneada pelo antropólogo Viveiros de Castro, cujas denúncias abarcaram a eterna precária condição dos indígenas em território nacional, sem eira nem beira, conforme se caracterizam as belíssimas fachadas do casario oitocentista. Aliás, aqui vai o mea- culpa, porque dei o meu quinhão de aculturação ao distribuir refrigerante aos curumins que se arrastavam pelo centro do vilarejo abençoado por Deus, ainda que a matriz necessite de um olhar mais apurado das autoridades sob a égide do Patrimônio Histórico Nacional.

Duas outras atividades que não poderiam deixar de ser documentadas foram as conferências alternativas dos poetas Mano Melo e Tavinho Paes, com os quais compartilhei uma excelente moqueca de peixe à luz da sagrada caipirinha. Acompanhado do cordelista Edmilson Santini, o bardo cearense recitou à porta da igreja poemas de sua autoria de caráter libertário, clamando pela atenção aos artistas populares responsáveis pela essência da poesia de rua. Já o autor de Totalmente demais e Rádio Blá, a convite da proprietária do Luna Bistrô, a simpática Marília, discorreu sobre questões político-estéticas que abarcam a função existencial da escrita, em diálogo com as tendências multifacetadas da pós-modernidade. O ponto negativo ficou para o telão da Praça da Matriz que, embora com a ótima proposição de gratuidade, afastou os participantes em razão do forte sol do agosto paratyense. Rezo para que não retornem com a ideia anterior de cobrança, mas apenas solicitem que a prefeitura caiçara construa no local um anfiteatro com cobertura para não prejudicar as palestras diurnas.

Enfim, sem paródia que desestabilize o seu encanto de arraial mítico à beira-mar, Paraty é (e continua sendo) uma festa!... 

 

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário e autor de diversos livros, entre os quais, O enigma Diadorim (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa).- Wanderlourenco@uol.com.br        

Tags: aberta, coluna, lourenço, Sociedade, wander

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