Jornal do Brasil

Segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Normose e mediocridade, a patologia da normalidade

Breno Rosostolato*

O psiquiatra italiano Roberto Assagioli, fundador do movimento psicológico conhecido como Psicossíntese, uma vez afirmou que a “normalidade é uma mediocridade que não admite ou até mesmo condena tudo o que se encontra fora de suas normas e o considera como anormal sem levar em conta que muitos comportamentos ditos como anormais são em realidade começos ou tentativas para ultrapassar a mediocridade”.  Neste sentido, Herman Hesse, escritor alemão que se naturalizou suíço em 1923, condena a normalidade quando diz que “não existe nada tão mau, selvagem e cruel, na natureza, quanto os homens normais.

Mas o que há de mal na normalidade? A normalidade é o sintoma da mesmice, da repetição sem elaboração, das atitudes sem propósitos, pensamentos padronizados, determinações, normatividades e a total falta de questionamento ou reflexão. Doença que sempre foi associada ao anormal, à disfunção, e em que o sujeito normal seria aquele que melhor se adapta, constata-se que a normalidade em demasia é sim um problema. Esta foi a conclusão a que chegaram os pensadores Pierre Weil, psicólogo francês, Jean-Ives Leloup, filósofo, psicólogo e teólogo francês, e Roberto Crema, psicólogo e antropólogo brasileiro, na década de 80.

Foi do encontro dos três em um simpósio em Brasília que surgiu o livro A patologia da normalidade, que apresentou o conceito de normose. Conforme Weil, a normose pode ser definida como um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou por maioria em uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte. Já para Crema, a pessoa normótica é aquela que se adapta a um contexto e a um sistema doente, e age como a maioria. Leloup complementa afirmando que a normose é um sofrimento, a busca da conformidade que impede o encaminhamento do desejo no interior de cada um, interrompendo o fluxo evolutivo e gerando estagnação.

E eis que surge uma concepção na qual considera o normal anormal e demonstra que a normalidade é mais do que repetições, construções de hábitos e costumes, mas é, em determinados momentos, uma falta de perspectivas, o afastamento, a mudança e negação às transformações tão necessárias para que possamos viver. Isso não quer dizer que o normal é ruim, mas o normal pode ser a estagnação, uma âncora, pés engessados e mãos amarradas, e, pior, o normal mantém uma equivocada mentalidade: “Mas está bom assim mesmo” ou “as coisas são assim mesmo”, e por ai vai.

A normose se aproxima da ideia de mediocridade, uma das grandes moléstias da civilização. O medíocre é aquele que flerta com o fracasso porque vive diante do empobrecimento de espírito, aquele que vive na mesmice e considera o que faz suficiente e, muitas vezes, contamina os que estão em volta com a sua falta de possibilidades.

Mas engana-se quem considerar normose e mediocridade a mesma coisa. Embora intersecções existam, a normose ocorre quando o contexto social que nos envolve se caracteriza por um desequilíbrio crônico e predominante, ou seja, é uma epidemia histórica, com passagens evidentes no percurso tortuoso das sociedades e nas transições culturais. Era comum, por exemplo, pessoas se digladiarem até a morte para entreter o público. Gladiadores eram muito respeitados pelo papel que exerciam e pela eminência à morte. Foi também muito comum perseguirem pessoas consideradas hereges, e levadas, sumariamente, à fogueira por contrariarem os preceitos da Igreja, assim como era corriqueira a violência às mulheres, considerando-as seres inferiores e meros objetos sexuais e de controle social por uma sociedade patriarcal. Era muito normal, a cada invasão e conquista de terras, os soldados estuprarem mulheres como uma recompensa pelo grande feito. E ainda para citar fatos históricos normóticos, era normal fazer pessoas trabalharem sem remuneração, submetidas aos castigos físicos, só pela cor da pele, ou considerar que os gays era um grupo de risco  na pandemia do HIV.

A mediocridade é o pensamento formulado através do comportamento considerado normal. Racismo, a eugênica social, homofobia e sexismo foram e são preconceitos que se fixaram na sociedade por serem considerados aspectos normais na construção desta sociedade. A normose diminui, altera, camufla e distorce a perplexidade dos fatos, tornando-os, com o tempo, algo habitual. A questão complica-se quando o hábito passa a ser tradição e assim, já sem efeito de reflexões ou passível de indagações, é intocável.

Enquanto que a normose é a apatia do pensamento, a mediocridade é a castração das emoções, da iniciativa, do desejo, do espírito e do conhecimento. O normótico considera normal a sensação de estranhamento, que para ele não é estranho, mas que no outro causa indignação e necessidade de promover mudanças. Para ele, a insatisfação é inerente. Muito embora seja regido pela aceitação, logo reprime o próprio movimento de metamorfose. Acomoda-se com aquilo que chama de conquista e parece viver esperando que algo mágico aconteça no mundo, no universo e que resvale nele. O normótico não forma opinião, mas segue a da maioria, o detalhe é que ninguém precisa ser “do contra” para formar uma opinião, mas, no mínimo, o contra precisa ser considerado. A mediocridade está em manter a atrofia mental.

Ainda persiste a ideia de que a mulher é propriedade ou objeto sexual do homem, relacionamentos amorosos pautados na crença de que só se é feliz se existir outra pessoa e na expectativa do amor romântico e que o sexo é sujo e pecaminoso. Acredita-se muito ainda em valores demagogos e hipócritas que se baseiam na aparência, na ostentação e status. Modelos educacionais falidos e enfadonhos que padronizam os alunos ao invés de favorecerem a autonomia deles.  É a insistência da cultura da censura que quer calar vozes que emergem das repressões do passado, a normose é resultado da massificação, a sombra como a única imagem refletida na parede, que não deixará de existir, mas que cria também oposição à medida que olhamos para dentro de nós mesmos.

*Breno Rosostolato, psicólogo, é professor da Faculdade Santa Marcelina

Tags: aberta, breno, coluna, rosostolato, Sociedade

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