Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Auto de Ariano Suassuna

Wander Lourenço*

Após a partida do mestre Ariano Suassuna, possivelmente na Barca do inferno, de Gil Vicente, o teatro brasileiro se tornou órfão de um artista teatrólogo apto a se constituir no Olimpo da posteridade, por um clássico intitulado Auto da Compadecida, que, ao lado de Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, e Gota d’água, de Paulo Pontes e Chico Buarque de Hollanda, compõe uma espécie de tríptico primordial da dramaturgia pátria. É fato que o próprio Suassuna confessara que construiu a história de João Grilo e Chicó, a partir de três folhetos de cordel que originaram a peça de teatro; entretanto, se o leitor/espectador se propuser observar com prevenção crítica, constatará que o diálogo se perfaz com a tradição da história do gênero literário, desde os comediógrafos da Roma Antiga de Plauto, Sêneca e Terêncio aos subterfúgios da modernidade proposta por Mário de Andrade, sem perder de vista Moliére, Maquiavel com a sua A mandrágora e, em essência, o já citado timoneiro Gil Vicente.

Por detrás de sua aparência regional, o Auto da Compadecida intencionalmente irá se apropriar da herança modernista compartilhada com Nelson Rodrigues, pelo viés da proposição do binômio erudito/oralidade, a pautar inclusive o ritmo do Movimento Armorial, que logo a princípio deságua na desestabilização do auto medieval com a inserção dos elementos de comicidade, que se instauram pela farsa e pelo espetáculo mambembe do circo.  

Ao resgatar a estratégia de Gil Vicente, Suassuna escreve uma comédia com o título de auto; e, assim como o fizera em sua macunaímica Farsa da Boa Preguiça ao se utilizar do nome de batismo de uma personagem do Eunuco, de Terêncio, Simão, introduz aspectos das múltiplas tendências cênicas que abarcam o Renascimento, Calderón de La Barca e a Commedia Dell’arte. 

Ao adaptar a religiosidade do sertão nordestino com uma Nossa Senhora que deu à luz um Cristo negro, da mesma maneira que reescreveria a Aulularia - ou a comédia da panelinha e o Soldado Fanfarrão, de Plauto, e O avarento de Moliére, com o Santo e a porca e A pena e a lei, Ariano Suassuna, em seu Auto da Compadecida, conseguiria alinhar as influências literárias com o engenho e a maestria de um gênio da arte da representação imortalizada por Ésquilo, Sófocles e Eurípides, sem incorrer na crítica velada que por vezes se faz a Ariano Suassuna sobre a ausência de originalidade do autor... Ainda em se tratando da questão religiosa, se deflagraria uma crítica ao comportamento dos representantes da Madre Igreja que, decerto, fora extraída d’A mandrágora de Maquiavel. 

Além disto, à tal antropofagia originária dos intelectuais paulistas de 22 se impõe a restauração de uma linguagem simples e fluente, sem os malabarismos retóricos de Antônio Vieira e a dicotomia barroca entre o Bem e o Mal, que ditavam as regras dos autos assinados por José de Anchieta.  

No entrediscurso das ações, se percebe a necessidade de denúncia da desigualdade social regida por bispos e coronéis fazendeiros, quiçá resgatada do neorrealismo da Geração de 30. No entanto, o que mais chamaria atenção na leitura do Auto da Compadecida vem a ser a eleição de um elemento étnico intermediário – o amarelo –, não mais o indígena do projeto de nacionalidade romântica ou o caboclo das narrativas de Coelho Neto ou Rui Barbosa, para protagonizar as cenas pelas prédicas picarescas buscadas nas páginas das novelas barrocas espanholas e, sobretudo, em Dom Quixote La Mancha, de Miguel de Cervantes. Por isto, a árdua travessia de João Grilo se esboça por um subterfúgio de criação estética que, pela habilidade de inteligência, desafia as autoridades vigentes – o coronelismo, o cangaço e a Igreja –, ao se constituir o herói pícaro quixotesco a se revelar por intermédio dos pagãos andarilhos sem eira nem beira oriundos do Nordeste brasileiro.  

Salve, Ariano Suassuna, que, possivelmente, ao tomar a embarcação vicentina e descer ao purgatório de Dante Alighieri, será arguido por São Pedro para as devidas explicações pela escolha de um Jesus de Nazaré enegrecido a intermediar as infrações de João Grilo com a sua Mãe Compadecida, Nossa Senhora dos injustiçados, que, mesmo sem pão e amém, ainda prestarão conta de suas peripécias pela sobrevivência no Juízo Final.   

 

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário e autor de diversos livros, entre os quais, O enigma Diadorim (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - Wannderlourenco@uol.com.br           

Tags: aberta, coluna, lourenço, Sociedade, wander

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